sexta-feira, 19 de maio de 2017

Cesário Verde - síntese

Como combinado, deixo uma sistematização dos tópicos registados em aula. A partir dos exemplos aqui fornecidos e dos registados em aula, encontrem os vossos próprios versos e ideias-chave, bem como as surpresas temáticas e linguísticas mais interessantes.   
Escrevo-te sobre uma secretária comercial, cheia de papéis, de livros, de notas, de trinta mil coisas que me tornam prosaico e prático.
Eu não sou como muitos que estão no meio dum grande ajuntamento de gente completamente isolados e abstratos.” Cesário
“(…) eu não desprezo de modo algum o coração, que quando desprezado não deixa brotar nenhuma obra de arte.
Mas o que eu desejo é aliar lirismo e ideia de justiça.”  Cesário

É uma poesia capaz de reflexão, de denúncia, de preocupação com a injustiça social. Sem pieguices, «prosaica», «prática», qualidades que Cesário atribuía a si próprio em resultado da atividade comercial que exercia.
 
        TEMAS E MOTIVOS
·        a grande cidade – a Babel dos novos tempos: as ruas, as gentes, os tipos sociais, o movimento, a confusão; a modernidade; a rua, como espaço preferencial
·        a vida do campo não como “ideal romântico”, mas como espaço natural - com batatais, laranjas, formigas, vacas -  humanizado pelo trabalho do homem: em Cesário há o «campo» e não a «natureza».
·        a simpatia pelos humildes (atenção às profissões mais difíceis): pedreiro; calafate; calceteiro; carpinteiro; engomadeira; vendedeira; peixeira; padeiro...
·        a deambulação – o homem na cidade; o “eu” observador e protagonista; atento e compassivo, mas também melancólico e ausente.
.    o jogo de contrastes - realidades sociais opostas; subjetivo v/s objetivo; beleza do dia v/s miséria social; autocaraterização/caracterização da figura feminina ...
·        referência ao inédito, ao abjeto, ao repulsivo: a doença; a podridão; a devassidão; a boçalidade; a prostituição...
·        a ânsia de evasão/fuga (de lugar - pela viagem/ imaginação; de tempo – evocação/ sonho/memória/História)
 Na pintura «realista», nomeadamente em Gustave Courbet (1819-1877),
as figuras dos trabalhadores ocupam a centralidade do quadro

LINGUAGEM /ESTILO
Vocabulário
Para traduzir esse universo de novos temas e a observação atenta do quotidiano, Cesário Verde valoriza, faz entrar para a poesia vocábulos considerados prosaicos (próprios da prosa), como:
·          elementos  do quotidiano (nomes comuns): prédio; inquilino; gelosia; talheres; persianas; candelabros; parafuso; giga; balcões...
·          nomes de profissões: calceteiro; calafate; varina; peixeira; calceteiro; vendedeira; forjador; caixeiro...
·          nomes de doenças e/ou de realidades desagradáveis: cólera; febre; dores de cabeça; tonturas; apoplexia; pulmões doentes; focos de infecção...
·          palavras cujo ritmo e sonoridade eram estranhas/improváveis em poesia: apoplexia; macadamizadas; mecklemburgueses; consecutivamente; asfixia; inquilino...
·          expressões muito diretas/realistas: “peixe podre gera focos de infecção”; “secavam dejecções cobertas de mosquiteiros”; "cospem nas calosas mãos"...

Marcas narrativas – referências temporais e verbos normalmente próprios da narrativa:
·         verbos de movimento– andar, descer, abrir, pousar – muitos dos quais traduzem acções/actividades do quotidiano – “Já fumei três maços de cigarros...”Pousara, ajoelhando, a sua giga”; Calçam de lado a lado a larga rua” .
·         advérbios de tempo/outras marcas temporais: “Dez horas da manhã”
·         advérbios de modo – consecutivamente, insensatamente, perfeitamente...
·         inclusão de discurso directo: “Se te convém, despacha; não converses./Eu não dou mais.”
·         expressões retiradas da oralidade: “Que diabo!” ; “Que mundo!” ; “Coitadinha!”

DESCRIÇÃO
Descrição realista - seca, não “romântica” ou retocada da pobreza:
·        a vendedeira é “esguedelhada” “feia”;
·        a engomadeira “ É feia”, ”lívida”, “sem peito”;
·        os calceiteiros “terrosos e grosseiros”, “bestas de carga” 
 Também Edgar Degas (1834-1917), um dos fundadores do impressionismo, 
refletia nas suas pinturas as novas classes trabalhadoras surgidas nas cidades do século XIX.
Descrição impressionista – feita de sugestões de cor, de luz, de captação da surpresa do instante:
·       “Amareladamente, os cães parecem lobos” ;
·       "Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas”
·       "Vibra uma imensa claridade crua”, “Abre-se-lhe o algodão azul da meia”
·       "Os charcos brilham tanto (...) lagoas de brilhantes" 

Descrição sensorial - Forte poder dos sentidos, em especial da visão (VISUALISMO), mas também dos restantes sentidos - audição, cheiro, gosto, tacto:
·        O OLFATO "cheiro honesto a pão no forno"
·        A AUDIÇÃO E A VISÃO "um parafuso cai nas lajes às escuras”
·        O PALADAR "as frutas tónicas e puras”, “As laranjas com cascas e caroços/, comes com bestial sofreguidão”
·        O TATO Faz frio.” , “A sua barba agreste”.

Recursos
·       adjetivo (por vezes, dupla, tripla ou múltipla adjetivação) e advérbio - em novas e inesperadas combinações e, por vezes, em lugar inicial de frase - "[...] feio, sólido, leal"; "E rota, pequenina, azafamada [...] uma rapariga"; "E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,/Amareladamente, os cães..."
·       utilização original de comparações e metáforas – “Com o ralo/ Do regador, parece que joeira/Ou que borrifa estrelas”; “chorar doente dos pianos”, “E o Sol estende[…]seus raios de laranja destilada” ,
·       Recurso a figuras de estilo que traduzem o movimento, o ambiente, a mistura de sensações, sobretudo: sinestesia; enumeração.

O melhor é mesmo ter o livro, mas se não tiveres, 
podes descarregar os poemas de Cesário Verde.

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