quarta-feira, 19 de março de 2014

Kipling


 «Joseph Rudyard Kipling (Bombaim, 30 de dezembro de 1865Londres, 18 de janeiro de 1936) foi um autor e poeta britânico.

É mais conhecido por seus livros "The Jungle Book" (1894), "The Second Jungle Book" (1895), "Just So Stories" (1902), e "Puck of Pook's Hill" (1906); sua novela, "Kim" (1901), entre outros.
É considerado o maior "inovador na arte do conto curto"; os seus livros para crianças são clássicos da literatura infantil; e o seu melhor trabalho dá mostras de um talento narrativo versátil e brilhante.


 
Foi um dos escritores mais populares da Inglaterra, em prosa e poema, no final do século XIX e início do XX. (...) Foi laureado com o Nobel de Literatura de 1907, tornando-se o primeiro autor de língua inglesa a receber esse prémio e, até hoje, o mais jovem a recebê-lo.  
Muitos viam preconceito e militarismo nas suas obras e a controvérsia sobre esses temas em sua obra perdurou por muito tempo ainda no século XX ."

 
 

Os Lobos do Mar

No original, o livro chama-se Captains Courageous. Eis algumas passagens:


O Velho e o mar

Aqui fica um booktrailer - mesmo a propósito.



segunda-feira, 10 de março de 2014

sábado, 8 de março de 2014

O Velho e o Mar

Para os que irão participar na inicativa - Dos Kamishibai às Novas Tecnologias e para os que apenas precisam de exemplos de crítica, aqui fica um dos grandes livros da literatura universal 

 O velho e o mar - Ernest Hemingway

"O velho e o mar começa por ser uma bela história de amor, compaixão e respeito entre um jovem e um velho. É algures em Cuba, numa terra de pescadores envolta em pobreza, que ambos vivem. Manolin é um jovem pescador que passa os seus dias a pescar e a cuidar do seu bom amigo, o velho Santiago.

Santiago é um pescador com provas dadas. O seu passado fala por si. Porém os últimos tempos não têm corrido de feição e há já quase três meses que não consegue pescar um único peixe.

Com o incentivo de Manolin, Santiago volta ao mar e vai bater-se durante quatro dias, em condições muito atrozes, com um enorme espadarte (cerca de 700 quilos). Só por si, pescar um peixe destes já é uma grande obra, mas se pensarmos que é um velho sozinho, num barco pouco maior que uma canoa, o cenário ainda se torna mais impensável. Ainda assim consegue capturá-lo mas como se afastou imenso da costa, o regresso é demorado. O sangue do espadarte atrai vários tubarões e o esforço de vários dias de luta dá em nada. Quando finalmente chega a terra apenas existe a carcaça e o que resta da cabeça do peixe.

A grande mensagem deste pequeno livro é que, por muitas adversidades que nos possam aparecer no caminho, nunca devemos desistir. Ernest Hemingway consegue escrever poesia em forma de prosa e singelamente fazer passar a sua mensagem. Embora não seja um exercício fácil, se eu tentasse arranjar um adjetivo para descrever a mensagem deste livro, penso que persistência espelha relativamente bem.

Outra mensagem implícita na obra é a nobreza de respeitar o animal que utilizamos para comer. Por várias vezes o pescador como que pede desculpa ao pescado, embora nunca haja sentimento de culpa pois sabe que irá honrar o fim a que se destina.

Depois de ter lido há algum tempo "O adeus às armas", O velho e o mar serviu essencialmente para recordar como se pode escrever com intensidade, descrever com precisão e imensa simplicidade. Gostei bastante de ler esta obra, por várias vezes senti-me no barco à deriva, com dores nas costas e as mãos em ferida. Tudo isto sem água... "

In Conspiração das Letras,  http://conspiracaodasletras.blogspot.pt/2013/09/o-velho-e-o-mar-ernest-hemingway.html

sexta-feira, 7 de março de 2014

Ler devia ser proibido!



Considerem-se avisados: Ler prejudica gravemente a apatia da mente!
 


Texto
 
"Pensando a respeito, eu acho que ler devia ser proibido.
Nada contra quem lê, mas de certas coisas não se duvida e ler não é nada bom.
A leitura nos torna incapazes de suportar a realidade, a leitura tira o homem de sua vida pacata e o transporta a lugares nada convencionais.
Para uma criança o perigo é ainda maior porque ela pode crescer inconformada com os problemas do mundo e querer até mudá-lo. Dá para imaginar?
E outra coisa: ler pode estimular a criatividade e você não vê uma criancinha bancando geniozinho por aí. É?
Além disso, a leitura pode tornar o homem mais consciente e ia ser uma confusão se todo o mundo resolvesse exigir o que merece.
Nada devagar pelos caminhos da imaginação, simplesmente porque leu um bom livro.
Há quem diga que ler engrandece, mas eu não conheço um caso sequer.
Quer um conselho? Silêncio.
Ler só serve aos sonhadores e sua vida não é uma brincadeira.
Cuidado, ler pode tornar as pessoas perigosamente mais humanas."
 
Campanha de incentivo à leitura com a assinatura da Universidade de Salvador, Brasil

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Medo e censura


A memória  é importante para sabermos quem somos e o que queremos.
 
Na continuação da conversa havida sobre o tempo do avô de Valdemar, deixo um poema do escritor Alexandre O'Neill  e várias imagens da ação da Censura em Portugal nessa época.
Porque não foi só o azar que estragou a vida a Nicolau Manuel...




 O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias...
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

*

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos

Alexandre O'Neill, in Abandono Viciado



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

CLASSE DOS VERBOS - valor aspetual

CLASSE DOS VERBOS
CATEGORIAS MORFOSSINTÁTICAS DO VERBO
O aspecto exprime a estruturação interna da situação representada linguisticamente no enunciado e dependem, principalmente, do ponto de referência. A mesma situação pode ser perspectivada como estando em curso (ou desenvolvimento) ou como um todo completo
O aspecto é a categoria verbal que expressa o início, o desenrolar ou o terminar de uma acção.

O valor aspectual de um enunciado não é geralmente dependente do seu valor temporal.

Ex: Na frase "Um homem também chora" (v. no presente do indicativo), não significa que está um homem a chorar neste momento, mas antes que - genericamente falando - aos homens também é permitido chorar.

Neste caso, diz-se que o enunciado tem valor genérico porque refere uma pluralidade infinita de situações, construídas como atemporais.


Vamos ver, então, valor/aspecto gramatical:

ASPECTO
EXPLICAÇÃO
EXEMPLO
IMPERFETIVO
Refere um processo em realização, inacabado.
Valor aspectual de um enunciado que representa uma actividade, um estado ou um evento prolongado, construídos como homogéneos, quer estejam em curso (ex.1) ou não (ex.2 e 3).
A duração das situações imperfectivas pode ser determinada extrinsecamente por locuções adverbiais durativas (ex.2 e 3).
O imperfectivo pode combinar-se com os valores temporais de simultaneidade (ex.1 e 4), anterioridade (ex.2 e 6) e posterioridade (ex.3 e 5).
Em (1), (2), (3) e (5), o ponto de referência identifica-se com o tempo da enunciação.
Em (4) o ponto de referência, que é interior à situação, é expresso linguisticamente pela locução adverbial temporal proposicional quando a vi.
Se, no enunciado (2), se substituir a locução adverbial durativa (da forma 'durante x tempo') por uma locução adverbial de completamento (da forma 'em x tempo'), obtém-se um enunciado com valor perfetivo (ex.6). Neste último exemplo, a locução adverbial retroage aspectualmente sobre a actividade ler, que adquire características de evento, passando a significar "aprender a ler": é construída uma transição que corresponde ao atingir de uma finalidade, neste caso a aquisição de uma capacidade.
Estudo numa capital europeia.
(1) A Maria está a ler o livro.
(2) A Maria leu durante duas horas.
(3) Esta tarde, a Maria vai nadar até ao pôr do Sol.




(4) A Maria estava a ler um livro quando a vi.
(5) A Maria vai estudar com o João.
(6) A Maria leu em 15 dias.
PERFETIVO
Apresenta um processo completo, terminado no momento da enunciação.
Diz-se que um enunciado tem valor aspectual perfectivo quando representa um evento construído como um todo completo a partir de um ponto de referência que lhe é exterior. Por esta razão, o perfectivo pode combinar-se com os valores temporais de anterioridade e de posterioridade mas não de simultaneidade.
O aspecto perfectivo implica a construção de um estado resultante (ex.1, 2 e 3).
O pretérito perfeito simples e as formas de futuro são geralmente marcadores linguísticos de valor perfectivo quando se combinam com eventos instantâneos e com eventos prolongados.
A compatibilidade (ou incompatibilidade) com determinadas locuções adverbiais aspectuais constitui um teste empírico para a identificação do valor perfectivo ou imperfectivo de um enunciado.
O valor perfetivo é compatível com locuções adverbiais de completamento - da forma 'em x tempo' - em duas horas (ex.4), mas não com locuções adverbiais durativas homogéneas da forma 'durante x tempo' - durante duas horas (ex.5).
Este último exemplo mostra que, ao concorrer com uma locução adverbial durativa, o valor aspectual que, em (1), é perfectivo passa a ser imperfectivo, pois deixa de implicar a construção de um estado resultante.
(1) A Maria leu o livro. implica O livro está lido.
(2) A Maria vai ler o livro esta tarde. implica O livro vai estar lido esta tarde.
(3) A Maria desmaiou. implica A Maria está desmaiada.






(4) A Maria leu o livro em duas horas. implica o livro está lido
(5) A Maria leu um livro durante duas horas.
(o livro ainda não está lido)
GENÉRICO Diz-se que um enunciado tem valor genérico quando refere uma pluralidade infinita de situações, construídas como atemporais e verdadeiras em toda e qualquer situação de enunciação. O verbo ocorre geralmente no presente do indicativo, designado, nestes casos, por presente genérico.
As expressões nominais sobre as quais incide a predicação são interpretadas referencialmente como classes e não como indivíduos específicos (ex.1 a 5).
Em (4), a 2ª pessoa do singular pode ter interpretação genérica.
O enunciado (5) exemplifica uma relativa genérica.
O enunciado genérico exprime igualmente definições e outras propriedades universais nos diversos domínios da ciência (ex.6).
(1) O homem é mortal (2) Um homem não chora
(3) Homem prevenido vale por dois
(4) Se queres a paz, prepara a guerra
(5) Quem cala consente
(6) Dois e dois são quatro
HABITUAL Diz-se que um enunciado tem valor habitual quando refere uma pluralidade teoricamente infinita de situações que se sucedem durante um período construído como ilimitado. Corresponde geralmente à predicação de uma propriedade sobre um indivíduo ou um grupo de indivíduos. A pluralidade de situações construídas pode ter como ponto de referência o tempo da enunciação e, nesse caso, o verbo ocorre no presente do indicativo (ex.1 e 2);
e pode ter como ponto de referência uma coordenada temporal distinta do tempo da enunciação e, nesse caso, o verbo ocorre no pretérito imperfeito do indicativo (ex.3 e 4).
O valor habitual combina-se frequentemente com o valor iterativo.
O valor habitual é um valor aspectual imperfectivo.





(1) O João joga futebol aos domingos.
(2) Os irmãos do João costumam almoçar na escola.


(3) O João almoçava na escola quando estava no ciclo.
(4) O pai do João costumava fumar um charuto depois do jantar.

PONTUAL
Indica um processo que dura apenas um instante.
O aspecto pontual pode ser expresso pelo conteúdo lexical ou por advérbios ou locuções adverbiais.
Um enunciado tem aspecto pontual quando a situação representada pelo seu conteúdo proposicional é construída sem qualquer duração e portanto sem estrutura interna (ex.1).
Quando o termo 'pontual' caracteriza o aspecto lexical de uma expressão predicativa, a situação representada identifica-se geralmente com um evento instantâneo.
O aspecto pontual só é compatível com o aspecto imperfectivo quando o enunciado tem valor iterativo (ex.2 e 3).
Em (3), o valor iterativo é indissociável da interpretação distributiva do grupo nominal soldados.
O rapaz desmaiou na escola. (pretérito perfeito + conteúdo lexical)
A bomba explodiu. (pretérito perfeito + conteúdo lexical)
O Carlos caiu. (pretérito perfeito + conteúdo lexical)
Repentinamente falou. (adverbio)
(1) A Maria chegou às duas horas.





(2) A Maria chega sempre atrasada à aula das oito.
(3) Chegaram soldados durante horas.
DURATIVO
Exprime uma ação que perdura no tempo.
O aspecto durativo pode ser expresso pelo tempo, por uma perifrástica, pela repetição do verbo ou por advérbios ou locuções adverbiais
Caracteriza-se o aspecto lexical de uma situação como durativo quando o tempo que lhe é associado se estende durante um período de tempo necessariamente diferente de zero.
As situações durativas são delimitadas intrinsecamente - no caso dos eventos prolongados (ex 1) - e são delimitáveis extrinsecamente - no caso dos estados (ex 2) e das actividades (ex 3).
Ele dorme profundamente. (presente)
Está a dormir. (conjugação perifrástica)
Ele esperava ansiosamente notícias. (pretérito imperfeito)
Ele tem treinado muito. (conjugação perifrástica)
O João vai jogar toda a tarde. (conjugação perifrástica)
Voava, voava. (repetição da mesma forma verbal)
A pouco e pouco esqueceu os desgostos. (locução adverbial)
(1) O João vai ler um romance policial esta tarde.
(2) O João teve uma casa na praia durante as férias.
(3) O João jogou no Benfica na época passada.
ITERATIVO

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Encontro com David Machado

 
"Uma sessão foi muito esclarecedora e muito tranquila"
                                                      João Martins e a Filipa
 
Na comunidade de leitores - Linhas Cruzadas (facebook) - foram deixados registos e apreciações muito interessantes sobre o Colóquio com David Machado.  Não resisto a publicar neste espaço duas imagens da autoria do Pietro e um texto do Nuno e do André.
 
 

Fotografias: PietroTangari

 
O escritor impressionou-nos devido à sua criatividade por ser capaz de apostar na escrita mesmo em tempos de crise.Também pareceu ser uma pessoa que apesar de ter seguido um curso de economia e depois de ter chegado a trabalhar no ramo,largou tudo e começou a escrever livros.Escutava as questões todas da mesma maneira,ou seja,sempre com paciência e respondia abertamente.O público respeitou o escritor,ficando em silêncio e escutando o relato da sua vida.Esse respeito facilitou a relação que o escritor estabeleceu com o público,permitindo apreciar a sessão.
 
Nuno Marques e André Matos|13/02

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Os nossos livros

 
 
- À VOLTA DOS LIVROS -

Conversa sobre Deixem Falar as Pedras
Encontro com o Escritor David Machado

Auditório da Câmara Municipal TV, 12 de fevereiro, 4ª feira
10º A, 10º B e 11ºF


CRÍTICA
por João Bonifácio

Mais do que uma boa história, um livro que se arrisca pelo passado do país
De cada vez que pegamos num romance, é sabido, estabelecemos um acordo tácito com o autor: suspendemos a descrença e aceitamos o faz-de-conta. Pelo que as melhores aberturas são, por norma, aquelas em que nem sequer nos lembramos de que há esse acordo e simplesmente avançamos.

Nisso, "Deixem Falar as Pedras", terceira obra e segundo romance de David Machado, é exemplar: à primeira frase - um simples "As minhas mãos apertam o pescoço do António com força e imediatamente me lembro de uma das histórias do meu avô" - sucumbimos à tentação normalmente atribuída apenas a porteiras mas omnipresente na raça humana: saber o que está a acontecer na vida dos outros. Reparem na seguinte sequência. A terceira frase do primeiro parágrafo é: "Sinto o sangue do António vibrar-me nos dedos, da mesma forma que um dia o inspector Dias sentiu o sangue grosso do meu avô pulsar-lhe através da pele". No segundo parágrafo, o narrador afiança que "nem sequer devia estar" ali, porque regra geral àquela hora vai "ao quiosque em frente da escola consultar as páginas da necrologia nos jornais", justificando assim o hábito: "Depois daquilo que aconteceu ao meu avô (por minha causa) é o mínimo que posso fazer". Percebemos que a voz é de um adolescente, queremos saber por que raio está a apertar o pescoço ao António e o que é que isso tem a ver com o avô e porque é que o narrador diz que o que aconteceu ao avô é culpa sua.

A primeira grande mais-valia de "Deixem Falar as Pedras" reside aqui: uma consciência apurada dos efeitos de narrativa e do "timing" de distribuição da informação, do valor das micro-histórias e do respeito pelas personagens secundárias - visível quando, mais à frente, um homem garantir que escapou três vezes à morte porque tem garganta de tubarão.

Estas qualidades seriam suficientes para contar uma boa história, mas o livro arrisca pela memória do país adentro e gradualmente vai-se tornando um trabalho sobre a identidade, a memória, a distância entre o país rural e o país urbano, o pré e o pós-25 de Abril.

Narrado por um adolescente obeso, enamorado de uma vizinha anoréctica que partilha com ele o amor por bandas aproximadas do metal, o romance começa a convencer ao conseguir encontrar uma voz credível para este moço. Intuímos que por trás dos seus demónios está uma fractura que reside na família - Machado, com maturidade, não mostra a "falha" familiar de forma pornográfica, antes acumula pequenos indícios. A narrativa principal surge por elipse, quando o miúdo recorda a vinda do avô paterno de Lagares para Lisboa, contra a vontade do próprio pai. O avô é o elemento disruptor: tem dedos a menos numa mão, diz palavrões, não respeita as regras da casa, conta histórias de sangue e terror. Este avô exerce um imenso fascínio sobre o neto, que assume a dor que este carrega. Quando o avô desiste da sua vingança e passa os dias a ver telenovelas (delicioso humor cruel), o neto está pronto a, por assim dizer, dar à narrativa do avô um fim digno.
Tudo se reporta ao tempo da outra senhora, na altura em que o avô estava noivo. Na madrugada do seu casamento, acorda com o barulho de tiros - um suposto (é essencial notar que tudo neste romance é "suposto") bando de guerrilheiros da Guerra Civil de Espanha que se havia acantonado junto à sua aldeia estava a ser atacado pela polícia. O irmão do avô passara a noite com uma das raparigas do ajuntamento, facto que foi transmitido às autoridades de forma deliberadamente deturpada - e em vez do irmão é ele que é enclausurado. Este é apenas o primeiro de um conjunto de acasos rocambolescos (quando não doentios) que atiram o avô para um vida de desgraças consecutivas.

Machado, escritor consciente das tramóias da arte da narrar, sabe que tem de haver uma justificação para o neto nos contar a história do avô, pelo que cria um "motivo", o mais óbvio e eficaz deles: a necessidade que o neto sente de reportar a verdade à ex-noiva do avô. Ao contar o passado do avô, o neto dá-nos, para cada facto, as várias versões que correram na época: a do avô, as que iam na boca do povo, as que ficaram registadas em livros oficiais (como os da polícia).

É aqui que o livro se torna maior: o neto "herda" a maldição do avô, torna-a sua. No entanto, o que ele toma como seu é um pedaço de história visto pelos olhos do avô (que podem muito bem distorcer o real). Pelo que nunca sabemos exactamente onde reside a verdade.

Há uma espécie de moral triste nisto: a nossa identidade é o rosto que as nossas memórias desenham; e no entanto somos capazes de escolhê-las, distorcê-las ou até de "viver" as dos outros e assim transformar os contornos do Eu. (Se isto fosse geometria poderíamos chegar a um corolário: qualquer vitória que obtenhamos sobre o passado é uma vitória ilusória; a vitória só deve ser procurada em nome do futuro. Mas, curiosamente, isto não é geometria.).
Há algo de profundamente humano nesta história de pides e fascismos, de amores e azares, de como se perde uma vida lá onde as cabras pastam e tantos anos depois se influencia o futuro de um neto. Algo que está para lá de técnicas de escrita, algo que - temo - o país que aqui está retratado não terá tempo nem paciência para olhar com atenção.

In Crítica Ípsilon, PÚBLICO
 





Lembrança de outras leituras...
 
***
SINOPSE

No dia em que se ia casar, Nicolau Manuel foi levado pela Guarda para um interrogatório e já não voltou. Viveu, assim, quase toda a vida na urgência de contar a verdade a Graça dos Penedo, a noiva que mais tarde lhe seria arrebatada pelo alfaiate que lhe fizera o fato do casamento. Porém, sempre que se abria uma possibilidade, uma ameaça desviava-o dramaticamente do seu destino - e agora, meio século volvido, está velho de mais para querer mudar as coisas, gastando os dias com telenovelas. De tanto ter ouvido ao avô a sua história rocambolesca, Valdemar - um rapaz violento e obeso apaixonado pela vizinha anoréctica - não desistiu, mesmo assim, de fazer justiça por ele. E, ao encontrar casualmente a notícia da morte do alfaiate, sabe que chegou a hora de ir falar com a viúva: até porque essa será a única forma de resgatar Nicolau Manuel da modorra em que se deixou afundar.


Alternando a narrativa dos sucessivos infortúnios de Nicolau Manuel - que é também a história de Portugal sob a ditadura, com os seus enganos, perseguições e injustiças - com a de um adolescente que mantém um diário com numerosas passagens rasuradas como instrumento de luta contra o mundo -, Deixem Falar as Pedras é um romance maduro e fascinante sobre a transmissão das memórias de geração em geração, nunca isenta de cortes e acrescentos que fazem da verdade não o que aconteceu, mas o que recordamos.

In WOOK, http://www.wook.pt/ficha/deixem-falar-as-pedras/a/id/10691738 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Aspeto Verbal (versão mais explicativa)



Em complemento ao estudado em aula, e conforme prometido, deixo este ppt de apoio. Os créditos estão referidos no documento.

Antes do ASPETO VERBAL tem A MODALIDADE (iremos dar mais tarde...)

Atenção: pode demorar um pouco a abrir. É só para consultar  e registar informação.

Não dispensa o uso da gramática!

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Projeto de leitura

 
A pedido de vários colegas, volto a publicar o guião de leitura.
Não têm de usar este modelo.

PROJETO DE LEITURA   
Identificação
Bibliográfica
Nomes do(s) aluno(s) leitor(es) deste livro
Género/Sub-género
Registo (sério, cómico, mordaz, crítico...)
 
 
Breve síntese do livro (não exceder 10 linhas)
 
 
 
 
 
Tema/problema/situação humana sobre a qual se reflete
 
Aspetos/pontos geradores de possíveis diferenças de opinião ou controvérsia interpretativa
 
 
 
 

 

Frases/passagens lapidares [indicar página(s) ]
 
 
 
 
 
 
 
 
 




Contributo do livro para a compreensão da vida/das pessoas/do mundo
 
 
 
 
 
Aspeto menos conseguido/apreciado
 
 
 
Informações com interesse sobre o autor e a fortuna do livro
(edições, receção do público/da crítica, possível adaptação ao cinema/teatro...)
 
 
 
Fase II
Agora que já discutiram o livro e registaram as vossas conclusões, está na altura de pensarem no TEXTO CRÍTICO. Assim:
  1. Leiam, com atenção, exemplos de CRÍTICA DE LIVROS publicadas em jornais e revistas, por ex., ler on-line:
 
  Visão - http://aeiou.visao.pt/
  1. Decidam o tipo de crítica que desejam fazer, o registo que querem adotar e planifiquem o texto (nos cadernos).
  1. Escrevam o vosso texto.
NOTA: Se houver computadores disponíveis e assim o preferirem, podem escrever diretamente no blogue.