quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Nobel da Literatura 2014

Nobel da Literatura 2014 distingue francês Patrick Modiano


"No Café da Juventude Perdida", de 2007, e "O Horizonte", de 2010, são obras de Patrick Modiano já  publicadas em Portugal.

 Patrick Modiano com a cantora e compositora Françoise Hardy, 1969, no Bois de Bologne (Paris)

Imagens do romancista publicadas no sítio Babelio




 "Durante seis meses, deslocou-se regularmente a casa de Simone Cordier para lhe remeter novas páginas e recuperar as já dactilografadas. Por precaução, pedira-lhe que conservasse em sua casa as folhas manuscritas.
- Receia alguma coisa?
Lembrava-se perfeitamente de que, certa noite, a mulher lhe fizera esta pergunta, fixando-o com um olhar surpreendido e ao mesmo tempo benevolente. Naquele tempo, a inquietação devia transparecer no seu rosto, na maneira de falar, de caminhar e mesmo de se sentar. Apoiava-se sempre no rebordo das cadeiras ou das poltronas, apenas com uma nádega, como se não se sentisse realmente no seu lugar e se preparasse para fugir. Por vezes, esta atitude surpreendia num jovem de estatura elevada e cem quilos de peso. Diziam-lhe: “Está mal sentado… Descontraia-se… Ponha-se à vontade…”, mas era mais forte do que ele. Exibia frequentemente um ar de quem se desculpa. De quê, afinal? Era a pergunta que muitas vezes fazia a si próprio quando caminhava sozinho pelas ruas. Desculpar-se de quê, hein? De viver? E não conseguia evitar uma sonora gargalhada que levava os transeuntes a voltarem-se para trás."
 
Patrick Modiano, O Horizonte (2011)
Crítica do Livro
Rostos, episódios breves, encontros singulares.
Tudo isto começara como que a vir ao de cima na memória de Jean Bosmans. Chegavam de um passado longínquo, do tempo da sua juventude, de há 40 anos atrás. "E, se todas as palavras ficassem suspensas no ar até ao fim dos tempos e bastasse um pouco de silêncio e de atenção para captar os seus ecos?"


"Quando entrei no Condé, os ponteiros do relógio redondo da parede do fundo marcavam exactamente cinco horas. Em geral, ali, é uma hora morta. As mesas estavam livres, excepto a que se situava ao lado da porta, à qual se sentavam Zacharias, Annet e Jean-Michel. Olharam-me de uma maneira estranha. Não disseram nada. Os rostos de Zacharias e Annet estavam lívidos, com certeza por causa da luz que entrava pela janela. Não responderam quando lhes disse bom-dia. Fixaram-me daquela maneira estranha, como se eu tivesse feito algum mal. Os lábios de Jean-Michel contraíram-se e senti que queria falar comigo. Uma mosca pousou nas costas da mão de Zacaharias e ele enxotou-a com um gesto nervoso. Depois pegou no copo e bebeu o conteúdo de um trago. Levantou-se e avançou em direcção a mim."
Patrick Modiano, No Café da Juventude Perdida (2007)

 Crítica
Retrato melancólico da boémia parisiense dos anos 60 num livro sobre a perda e o poder magnético dos lugares.
"No Café da Juventude Perdida", a mais recente ficção de Patrick Modiano (editada pela Gallimard em 2007), pertence a uma das mais antigas e persistentes linhagens da literatura francesa: o romance parisiense que toma como protagonista a própria cidade de Paris - com as suas ruas e atmosferas, o seu esplendor ou o seu mal de vivre.

«O escritor francês Patrick Modiano é o galardoado com o Prémio Nobel da Literatura 2014, foi hoje anunciado pelo Comité do Nobel.
A Real Academia de Artes Sueca jutifica sucintamente a decisão: "Pela arte da memória com que ele evocou o mais incompreensível dos destinos humanos e pôs a descoberto da vida no mundo da ocupação".
Patrick Modiano nasceu em Boulogne-Billancourt, nos arredores de Paris, em Julho de 1945, e publicou o seu primeiro romance, La Place de l'Étoile, em 1968. Com Rue des boutiques obscures obteve, em 1978, o Prémio Goncourt. Em 1972, recebeu o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa.
Considerado um dos mais importantes escritores franceses, e autor de uma vasta obra, Modiano foi distinguido recentemente com o Grande Prémio Nacional das Letras e com o Prémio Margerite-Duras.
O galardão será entregue numa cerimónia em Estocolmo, a 10 de dezembro, dia do aniversário do industrial Alfred Nobel, que instituiu o galardão.
O ano passado a vencedora foi a canadiana Alice Munro. José Saramago foi o único autor de língua portuguesa a ganhar o prémio Nobel da Literatura, em 1998. »


Fonte:VISÃO, 9 de outubro de 2014

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Preservar o ambiente

Como sugerido, os colegas Isabel Pinto e Gonçalo Pedro enviaram as reflexões que esceveram no teste diagnóstico. São muito distintas, mas ambas merecem a nossa atenção e constituem um contributo interessante para pensar nestes assuntos. Podem comentar - apoiar, contestar, acrescentar, sugerir, desdizer, completar...



“O homem vai buscar ao ambiente elementos essenciais à vida. Tem a obrigação de preservar o ambiente e de o explorar racionalmente. Estão em causa a sua própria saúde e a subsistência.”
Escreva uma breve reflexão (80-120 palavras) sobre as afirmações acima reproduzidas, deixando clara a sua posição e dando exemplos que apoiem as suas afirmações.




 

Desde sempre o Homem tenta aproveitar o que a Natureza lhe dá e transformá-lo. Com trabalho conseguiu-se mais e melhor. Mas esta qualidade de vida tem custos que muita gente esquece e traz consequências muito más.
É aí que se encontram a extinção de espécies, a poluição e, se mantivermos a falta de interesse e cuidado, talvez o fim da humanidade.
Apesar de ser nossa obrigação manter um desenvolvimento sustentável, a maior parte da população não se preocupa com o desgaste da Terra. Ignoram o facto de estar em causa a nossa subsistência e saúde.
Entre nós existem ambientalistas preocupados em acabar com os nossos maus hábitos e a mentalidade e espírito para acabar com a poluição já se espalharam.
(120 palavras)

Isabel Pinto
Nº 18, 11º A


 

O planeta Terra está cheio de recursos não renováveis e são os meios mais explorados pelo ser humano; a humanidade sempre abusou destes recursos e só agora se está a aperceber dos danos que causou ao planeta terra.
Todavia, o panorama está a mudar devido às novas tecnologias e à facilidade e eficácia da informação; também se verifica um grande aumento na exploração dos recursos renováveis que tem como consequência a evolução dos mesmos.
O nosso futuro está dependente desta evolução e acredito que a solução está nos recursos renováveis pois permitem preservar o ambiente e a exploração sustentável do nosso planeta.
(102 palavras)
Gonçalo Pedro 11ºC nº16
 
 
SABER MAIS|PENSAR SOBRE O ASSUNTO|AGIR
 
GreenSavers-temas-e-problemas relacionados com ambiente
 
 
 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Aquela madrugada...alegre e triste

Para permitir preparar melhor a aula de 6ª feira - conclusão da correção do diagnóstico - deixo a prometida proposta de correção/cenários de resposta do Grupo I.
Devem comparar com as propostas do teste intermédio de 2014, para perceberem o tipo de exigência.
 


ESCOLA SECUNDÁRIA HENRIQUES NOGUEIRA

PORTUGUÊS, 11º ANO   TURMA A                                                                        DOC. NOÉMIA SANTOS


CORREÇÃO DO EXERCÍCIO DE DIAGNÓSTICO

SETEMBRO DE 2014

I

1. Aponte a forma como a natureza é apresentada nas duas quadras.


A natureza aparece descrita neste poema quer através de elementos físicos, quer sensoriais e sentimentais.

-       Aspetos físicos – referência aos elementos naturais: serra, castanheiros, ribeiros, mar, terra, sol, outeiros, gados, nuvens.

-       Aspetos sensoriais e sentimentais: a hora do dia corresponde ao pôr-do-sol; a adjetivação que remete para os sentidos – fresca, verdes, manso, rouco [som do mar]; é uma paisagem habitada – o recolher dos gados. Em síntese é um lugar alegre - «Donde toda a tristeza se desterra».

 

2. Refira a função da natureza no sentido global do poema.

 

A natureza aparece, descrita neste poema, com duas conotações diferentes:

-       calma, bela e em harmonia com o poeta (“A fermosura desta fresca serra”, «Donde toda a tristeza se desterra»);

-       sem graça nem encanto para o eu poético (“tudo me enoja e aborrece”), quando a amada está ausente.

Assim, a natureza tem a função de evidenciar a importância do amor na leitura da realidade: a sua beleza própria e o seu pleno sentido só são alcançáveis com a presença da amada que passa a ser um elemento decisivo na visão subjetiva da paisagem.

 

2.1- O estado de espírito do poeta reveste-se de uma carga de sentimentos que expressam a saudade, a mágoa, a tristeza, a dor, a solidão e o sofrimento da alma.

-       «Me está, se não te vejo, magoando»

-       Sem ti tudo me enoja e me aborrece»

-       «Sem ti (…) estou passando/(…) mor tristeza»

A chave é a amada, cuja ausência é destacada pelo «se não te vejo» e pela anáfora- «Sem ti». O sujeito poético está triste porque não tem a presença da mulher amada. Sem ela o mundo que o rodeia não faz sentido, ainda que seja tranquilo, belo e alegre – “Sem ti, tudo me enoja e aborrece”.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Pensar


Iniciamos hoje a publicação dos pensamentos que registaram, para partilha e reflexão por toda a turma.
 
Para ser mais fácil reagir e comentar, reproduzem-se na página principal alguns dos textos dos colegas (para começar).  

Na minha opinião, os três piores vícios da sociedade atual são:
-o excesso de horas passadas a ver televisão ou a utilizar computadores;
-o consumo exagerado de alimentos demasiado gordos e açucarados, como o fast food e os doces;
-a utilização excessiva dos automóveis mesmo quando desnecessários.

Para melhorar a sociedade atual, três das atitudes que devemos adotar são:
-a estipulação de um número máximo de horas para ver televisão e a procura de meios alternativos ao uso da Internet como os livros e o convívio com os amigos em espaços públicos em vez de conversar virtualmente;
-realizar uma alimentação saudável;
-optar por caminhar ou andar de bicicleta para realizar deslocações pequenas e, para percorrer grandes distâncias, sempre que possível, utilizar os transportes públicos.

NOTA: Outro vício que considero que é muito prejudicial à sociedade atual é o tabaco. Este é a pricipal causa de muitas doenças que podem levar à morte.


Daniela Felismino nº12 11ºA



Assim, não!!!


Na minha opinião os três piores vícios da sociedade actual são:
1- É dada a prioridade ao dinheiro e à economia em vez de dar prioridade, por exemplo, à qualidade da água, do ar, dos alimentos...
2- Inveja
3- Gastos desnecessários (compras de roupas, sapatos...)

Três ações/atitudes para tentar combater estes três vícios são:
1- Aplicar multas a quem desrespeita o meio ambiente, por exemplo, aumentar a vigia nas ruas e aplicar uma coima a quem poluir o meio ambiente
2- Incentivar as pessoas a canalizar a sua inveja em esforço para alcançar o que lhes causa inveja
3- Educar as pessoas para estabelecer a quantidade de dinheiro que gastam de acordo com as suas necessidades

Ana Gomes, Nº5 11ºA


 Os vícios da sociedade atual são:
1- O tráfico de influências
2- O exibicionismo
3- O consumismo

Atitudes que poderíamos tomar para melhorar a sociedade atual seriam:
1- Educar as pessoas de modo a transmitir valores de honestidade e integridade por exemplo.... E desenvolver mecanismos de controlo sobre decisões tomadas.
2- Desvalorizar comportamentos superficiais e dar mais valor à humildade.
3- Esclarecer as pessoas sobre os efeitos negativos do consumismo exagerado, ensinando-lhes a controlar os seus impulsos.


Nuno Marques 11º A



A meu ver os três piores vícios da sociedade atual são:
1-Drogas.
2-A dependência das tecnologias atuais.
3-álcool.
Estes vícios podem ser parados com muita força de vontade, mas quando isso não e possível proponho as seguintes atitudes:
1- As drogas como se sabe são ilegais, e podem ser adquiridas muito facilmente pelos jovens, causando dependência.
Para impedir tal, devia-se ocupar mais os jovens com criação de tempos livres como o desporto ou atividades e hobbies interessantes, fazer campanhas de prevenção através da televisão e internet de modo a alertar os jovens para estes perigos.
2- Se o dependente for jovem, cabe aos pais impor regras, tais como estabelecer um limite de horas diárias, de forma a ir reduzindo o vício. Mas se o vício é muito grave e isso não funcionou pode tomar atitudes mais drásticas, como desativar (ou até excluir) contas em redes sociais, trocar o “smartphone” por um aparelho mais simples, sem acesso à rede, ou livrar-se de consolas que o viciaram.
3- No caso do álcool, devia haver leis específicas e mais eficazes com penas pesadas para quem não as cumprisse e com inspeções mais regulares nos estabelecimentos comercias, para que a sua venda a menores seja controlada.

Filipe Ferreira Nº15 10ºA



Na minha opinião os 3 piores vícios da sociedade são:
- O tabaco
- O álcool
- Internet/computador

Atitudes para melhorar a sociedade actual:
Para o caso do tabaco não sei se há opções por parte do fabricante, talvez aumentar a idade mínima para a compra do produto e alertar as pessoas do perigo do tabaco.
No caso do álcool nos estabelecimentos devia haver controlo no numero de bebidas que cada pessoa bebia.
No caso da Internet/computador, para os mais jovens, devia haver controlo parental, ter um máximo de horas por dia para usar o computador e chamar atenção sobre os perigos da Internet.

Ana Catarina Libório 11ªA Nº3

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Setembro ...outra vez

A má notícia é que as férias acabaram!




Sim, podemos sempre rever as imagens.

Avignon.Agosto/2014. N.S.

As boas notícias aqui vão:
- para o ano há mais
- temos tanto que fazer que nem vai sobrar tempo para nostalgias

Vamos a isto!

1º Período
Ø  Conteúdos literários:
 
·        Textos dos media
- artigos científicos e técnicos
- o comunicado
- a Publicidade
 
·        Textos argumentativos
- Reclamação/protesto
- o discurso político
 - Sermão de Santo António aos Peixes, Padre António Vieira
 
Ø  Expressão oral/escrita:
·        Texto de apreciação crítica
·        Texto argumentativo e expositivo-argumentativo
·        Resumo
 
Ø  Funcionamento da Língua
- consolidação e expansão dos itens abordados no 10º ano
 
Ø  Contrato de leitura
 
2º Período
 
Ø  Conteúdos literários:
·        Textos dramático
- Frei Luís de Sousa, Almeida Garrett

 
·        Texto narrativo
Um romance de Eça de Queirós: Os Maias ou A cidade e as serras
 
Ø  Expressão oral/escrita:
·        Comunicado
·        Texto argumentativo e expositivo-argumentativo
·        Resumo de textos argumentativos e expositivos-argumentativos
·        Debate
·        Textos expressivos e criativos
·        Textos de opinião
 
Ø  Funcionamento da Língua –  consolidação e expansão dos itens abordados no 10º ano
Ø  Contrato de leitura
3º Período
Ø  Conteúdos literários:
 
·        Texto lírico
- a poesia de Cesário Verde
 
Ø  Expressão oral/escrita:
·        Debate
·        Textos expressivos e criativos
·        Textos de opinião
·        Síntese de textos argumentativos e expositivos-argumentativos
 
Ø  Funcionamento da Língua –  consolidação e expansão dos itens abordados no 10º ano
 
Ø  Contrato de leitura
 

* A verde estão destacadas as obras a adquirir 
 
  • Gramática a adquirir (para quem não tem nenhuma atualizada):
Da Comunicação à Expressão – Gramática Prática de Português para o 3.º ciclo do Ensino Básico e Ensino Secundário, de de M. Olga Azeredo, M. Isabel Freitas M. Pinto, M. Carmo Azeredo Lopes (c. 20 a 22 €)
  • O Caderno de Exercícios não se justifica. Poderemos pensar, depois, num livro de exercícios e revisões.
 
Um bom ano, a nível escolar e pessoal!

domingo, 29 de junho de 2014

NOGUEIRA EM REVISTA|3


Parabéns a todos os que viram os seus textos publicados na NOGUEIRA EM REVISTA!

Atenção à Bárbara e à Mariana Matos:
tenho pena que não tenham conseguido ir ao lançamento.
Como os vossos textos foram publicados e têm bastante destaque, comprei a Revista para vos entregar, pois receio que esgote.

Digam como querem que vos entregue. 



quinta-feira, 19 de junho de 2014

Já conhecem a NOGUEIRA EM REVISTA?


NOGUEIRA EM REVISTA ...
Sem publicidade,
Sem palha,
Sem conversas parvas.



NOGUEIRA EM REVISTA é integralmente dedicada às ideias, à criatividade, à reflexão dos colaboradores.

NOGUEIRA EM REVISTA é integralmente desenhada por alunos de Design Gráfico.


Querem mais razões? Todos à FEIRA!


segunda-feira, 2 de junho de 2014

Os amigos

O que Distingue um Amigo Verdadeiro  

Não se pode ter muitos amigos. Mesmo que se queira, mesmo que se conheçam pessoas de quem apetece ser amiga, não se pode ter muitos amigos. Ou melhor: nunca se pode ser bom amigo de muitas pessoas. Ou melhor: amigo. A preocupação da alma e a ocupação do espaço, o tempo que se pode passar e a atenção que se pode dar — todas estas coisas são finitas e têm de ser partilhadas. Não chegam para mais de um, dois, três, quatro, cinco amigos. É preciso saber partilhar o que temos com eles e não se pode dividir uma coisa já de si pequena (nós) por muitas pessoas.

Os amigos, como acontece com os amantes, também têm de ser escolhidos. Pode custar-nos não ter tempo nem vida para se ser amigo de alguém de quem se gosta, mas esse é um dos custos da amizade. O que é bom sai caro. A tendência automática é para ter um máximo de amigos ou mesmo ser amigo de toda a gente. Trata-se de uma espécie de promiscuidade, para não dizer a pior. Não se pode ser amigo de todas as pessoas de que se gosta. Às vezes, para se ser amigo de alguém, chega a ser preciso ser-se inimigo de quem se gosta.

Em Portugal, a amizade leva-se a sério e pratica-se bem. É uma coisa à qual se dedica tempo, nervosismo, exaltação. A amizade é vista, e é verdade, como o único sentimento indispensável. No entanto, existe uma mentalidade Speedy González, toda «Hey gringo, my friend», que vê em cada ser humano um «amigo». Todos conhecemos o género — é o «gajo porreiro», que se «dá bem com toda a gente». E o «amigalhaço». E tem, naturalmente, dezenas de amigos e de amigas, centenas de amiguinhos, camaradas, compinchas, cúmplices, correligionários, colegas e outras coisas começadas por c.
Os amigalhaços são mais detestáveis que os piores inimigos. Os nossos inimigos, ao menos, não nos traem. Odeiam-nos lealmente. Mas um amigalhaço, que é amigo de muitos pares de inimigos e passa o tempo a tentar conciliar posições e personalidades irreconciliáveis, é sempre um traidor. Para mais, pífio e arrependido. Para se ser um bom amigo, têm de herdar-se, de coração inteiro, os amigos e os inimigos da outra pessoa. E fácil estar sempre do lado de quem se julga ter razão. O que distingue um amigo verdadeiro é ser capaz de estar ao nosso lado quando nós não temos razão. O amigalhaço, em contrapartida, é o modelo mais mole e vira-casacas da moderação. Diz: «Eu sou muito amigo dele, mas tenho de reconhecer que ele é um sacana.» Como se pode ser amigo de um sacana? Os amigos são, por definição, as melhores pessoas do mundo, as mais interessantes e as mais geniais. Os amigos não podem ser maus. A lealdade é a qualidade mais importante de uma amizade. E claro que é difícil ser inteiramente leal, mas tem de se ser.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Os Meus Problemas'

Ser Português

Ser Português é Difícil 




 Os Portugueses têm algum medo de ser portugueses. Olhamos em nosso redor, para o nosso país e para os outros e, como aquilo que vemos pode doer, temos medo, ou vergonha, ou «culpa de sermos portugueses». Não queremos ser primos desta pobreza, madrinhas desta miséria, filhos desta fome, amigos desta amargura. Os Portugueses têm o defeito de querer pertencer ao maior e ao melhor país do mundo. Se lhes perguntarmos “Qual é actualmente o melhor e o maior país do mundo?”, não arranjam resposta. Nem dizem que é a União Soviética nem os Estados Unidos nem o Japão nem a França nem o Reino Unido nem a Alemanha. Dizem só, pesarosos como os kilogramas nos tempos em que tinham kapa: «Podia ter sido Portugal...» E isto que vai salvando os Portugueses: têm vergonha, culpa, nojo, medo de serem portugueses mas «também não vão ao ponto de quererem ser outra coisa».

Revela-se aqui o que nós temos de mais insuportável e de comovente: só nos custa sermos portugueses por não sermos os melhores do mundo. E, se formos pensar, verificamos que o verdadeiro patriotismo não é aquele de quem diz “Portugal é o melhor país do mundo” (esse é simplesmente parvo ou parvamente simples), mas, sim, de quem acredita, inocentemente, que Portugal «podia ser» (ou ter sido) o melhor país do mundo e (eis a parte fundamental, que separa os insectos dos cicofantas) «tem pena que não seja», uma pena daquelas que ardem para toda a vida nos peitos profundos das pessoas boas.

Ser português não é nem a sorte com que sonhamos (não queriam mais nada — nascer logo uma coisa boa!) nem o azar com que vamos azedando. Ser português é um «jeito que se aprende». Não é coisa que vá à bruta ou à má fila. Não é bem que vá a bem (precisa de ser ajudado), mas também não é mal que vá à bruxa. Ser português não é tanto ser feito à imagem de Deus, como os outros povos (todos eles felizes), como estar, à partida, «feito». Cada vez que nasce um ser humano e olha para o bilhete de identidade e verifica que calharam os pedregulhos e os pêsames da portugalidade, diz logo “Pronto — estou feito — sou português”. Devia ter juízo. A única coisa que o absolve é ter, também, razão.

Ser português é «difícil». O resto do mundo não compreende que os Portugueses são especiais, diferentes, bastante giros, bem-educados, antigos, espertos, casos sérios. O resto do mundo acredita sinceramente que o mundo seria exactamente o mesmo sem os Portugueses. Para a grande maioria da população da Terra, a própria «existência» de Portugal é uma surpresa. E não se julgue automaticamente que se trata de uma grande surpresa ou, sequer, de uma surpresa «boa». É mais uma surpresa do género “Ah, sim?”. Como quem aprende que o «baseball» teve origem nos «rounders ingleses». Ah, sim? Que giro! Agora sai da frente do televisor que eu quero ver se este Babe Ruth era tão bom como diziam. Para o resto do mundo, os feitos dos Portugueses não pertencem à história fundamental do Universo. Pertencem, quando muito, à secção dos passatempos, do “Não me digas!” e do “Acredite se quiser”. Ser português é um ser delicado. Ser português não é «ser humano». É ser que tem muito para fazer só para ser «vivo».

Os políticos dizem que é preciso andar para a frente, modernizar, desenvolver, «mudar» Portugal, presumivelmente para melhor, porque este (nisto estão todos de acordo) não presta. Os poetas sonham com países que nunca existiram ou existirão, ou que já existiram e jamais existirão outra vez. Ninguém está contente com o que é, ou com onde está, ou com o que tem. Os Portugueses, o povo, a nação, os ditos, os implicados, envolvidos e lixados, esses nem ideia têm ou fazem — para eles a própria noção de Portugal foi um raio de ideia para começar. Mas o que é preciso não é nem tão drástico nem tão espectacular. O que é preciso é «continuar» Portugal.

Continuar Portugal não é uma acção delicada, ou uma campanha urgente, ou uma tarefa que exija o sacrifício de todos os cidadãos. É simplesmente continuar a perguntar, a barafustar, a amaldiçoar o dia em que se nasceu desta cor, nesta pele, com este coração mole e fácil de apertar e espremer. Continuar Portugal é acreditar que a vida seria pior sem ele, pior se a Europa começasse pela Espanha, pior se fôssemos suíços ou belgas ou finlandeses. Continuar Portugal é ser português e dizer “Pronto, que se lixe, o que é que eu hei-de fazer?”. E acreditar na diferença que faz a nossa maneira de ser, e de sermos portugueses, como um cardiologista acredita que o coração foi feito para continuar a bater.
E foi. E, o que é mais engraçado, continua!

Miguel Esteves Cardoso, in 'Os Meus Problemas'