domingo, 1 de março de 2015

Que leitor queres ser?

(…) pode ser duro para os alunos confrontarem-se com um texto que os obriga a deterem-se nele, selecionando palavras, destrinçando frases, esforçando-se por estabelecer conexões.
O problema é que o trabalho mais fácil não torna os leitores mais capazes. 

(Shanahan, Fischer e Frey 2012)

 Ilustração de Catarina Sobral 



Para facilitar a relação com textos mais desafiantes, não se esqueçam destas ajudas:

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Narrativa

A pedido de «várias famílias» ficam elementos para as revisões. 


Texto narrativo
O texto narrativo  conta uma “história”, original e/ou vivida por personagens (individuais ou coletivas); pressupõe o relato de acontecimentos reais ou fictícios que se sucedem no tempo.
Os eventos e as personagens situam-se num determinado espaço.
São, assim, elementos estruturadores da narrativa:
Ação
A ação e constituída pela sequência de eventos motivados ou sofridos pelas personagens.
Fechada — o leitor tem conhecimento do destino final das personagens; a história tem princípio, meio e fim.
Aberta — o destino definitivo das personagens é omitido, tal como o final da acção; a história não tem um princípio, um meio e um fim bem definidos; os episódios não fazem parte de uma ação única; o leitor é convidado a fazer uma reflexão sobre o que leu.
Fechada/Aberta — em determinados textos, encontramos referência ao destino definitivo das personagens, sem que, contudo, a reflexão deixe de ser motivada pelo relato dos acontecimentos, que pode não “fechar” completamente a ação em relação a determinados aspetos.

Personagens
Individuais ou Coletivas
Personagens desenhadas ou planas — estas são definidas por um elemento característico que as acompanha durante todo o texto; tendem para a caricatura ou para a representação de um grupo social (personagem-tipo).
Personagens modeladas ou redondas — trata-se de personagens complexas, que apresentam uma multiplicidade de traços caracterizadores; as suas atitudes perante os acontecimentos podem surpreender o leitor; aproximam-se do ser humano pela sua complexidade.
Espaço
Espaço físico — trata-se do espaço onde as personagens se movimentam e onde ocorrem os acontecimentos:
.geográfico
.interior
.exterior
Espaço social — ambientes vividos pelas personagens; liga-se às características da sociedade em que as personagens se inserem
Espaço psicológico — este espaço é construído pelo conjunto de elementos que traduzem a interioridade das personagens (como, por exemplo, o sonho, a memória, as emoções, as reflexões...).

Tempo
Tempo da história — é o tempo em que decorre a acção.
Tempo histórico — refere-se à época em que os acontecimentos têm lugar - final do século XIX, por ex.
Tempo do discurso —  forma como o narrador relata os acontecimentos — pode voltar atrás no tempo (analepses), adiantar determinado episódio (prolepse), omitir o que se passou em determinado período temporal (elipse), contar de forma abreviada o que aconteceu num certo período de tempo (resumo).

Tempo psicológico — é o tempo vivido pelas personagens de forma subjetiva, ou seja, relaciona-se com o modo como as personagens sentem a passagem do tempo.
 Tipos de narrador
Narrador heterodiegético — é uma entidade exterior à história; tem uma função meramente narrativa; relata os acontecimentos.
Narrador homodiegético — é uma personagem da história que revela as suas próprias “vivências” (não se trata do protagonista da história).
Narrador autodiegético — o narrador participa na história como protagonista, revelando as suas
Focalização da narrativa
A focalização  é o ponto de vista do narrador em relação aos acontecimentos narrados.
Focalização omnisciente— o narrador detém um conhecimento total dos acontecimentos.
Focalização interna — surge quando é instaurado o ponto de vista de uma das personagens que vive a história.
Focalização externa — acontece quando o narrador revela as características exteriores das personagens ou apresenta um espaço físico onde decorre a ação.
A focalização pode ainda ser:
Heterodiegética — a ação é contada por um narrador exterior à história.
Homodiegética — uma das personagens da obra toma o papel de narrador.
Interventiva — tem a função de comentário.
Nota:  a palavra diegese tem origem grega e significa história.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

O último Eça



Se ainda não têm o livro, comprem esta edição, porque inclui um prefácio muito interessante de Rui Zink, que aqui reproduzo, em parte. 
Editor: Quidnovi
Prefácio:  Rui Zink

Preço: 6,01 €. Podem comprar on-line em: Bulhosa - Books & Living

 *****
O livro onde fui feliz (Rui Zink)

O tema de A Cidade e as Serras é a felicidade. E o que Eça de Queirós nos fornece não é uma chave para a encontrarmos – isso é problema nosso – mas o relato, singelo, de como um homem, «o meu bom príncipe Jacinto», descobriu a sua. É um romance delicioso e terno, onde o humor não serve a feroz sátira mas a amável comédia – e toda a irritação é bonacheirona, até quando o narrador Zé Fernandes se exaspera por embater o joelho num livro «que velhacamente se aninhara entre a parede e os colchões». De resto, desafio o mais trombudo dos leitores a conseguir ler página e meia – a página e meia inicial! – sem que um sorriso deleitado lhe comece, como quem não quer a coisa, a torcer os cantos dos lábios. Este é o mais perfeito, mas também o mais simples romance de Eça. A história de um homem que vive em Paris, no paraíso da Civilização, até descobrir que a fonte que lhe acudirá à sede é outra. Mais simples de facto não há. O romance chama-se A Cidade e as Serras e, até meio, estamos na Cidade, depois nas Serras. Isto, enfim, com uma turbulenta viagem (mais lenta que turbo) de comboio, burro e queijo manchego entre Paris e Tormes. O livro segue uma linha recta. Ou melhor, uma linha ondulante, sinuosa, como o leito de um rio que serenamente corre para o seu destino. Em menos de meia-dúzia de páginas desdobra Eça os antecedentes necessários para justificar que Jacinto nasça em Paris, «no 202 dos Campos Elíseos», e passa logo ao que tem a contar: a transformação de Jacinto de rato da cidade em lebre do campo. Para quem já não é desse tempo, eu explico: acreditem ou não, no final do século XIX a cidade de Paris era o que hoje Nova Iorque, Tóquio, Xangai e, vá lá, Londres representam. Aqui já não temos, como em Eças anteriores, uma comparação triste e desigual entre um país provincianamente pífio e um mundo «lá fora» feito de Gosto e Cosmopolitismo, mas o inverso: em Paris morre-se de enfado lento, em Portugal renasce-se. Este livro pode­ria muito bem chamar-se Regresso a Casa. Duplo, triplo regresso a casa, aliás. Em primeiro lugar do protagonista, que descobre em Tormes a vitalidade perdida e a alegria nunca tida (já para não falar do apetite, o importantíssimo apetetitezinho). Em segundo lugar, regresso físico do autor, que andou muito, demasiado muito, por Paris, Newcastle, Havana. Em terceiro lugar, regresso da alma do autor, que finalmente se reconcilia (já não era sem tempo!) com o país do qual se apartara, do qual quase se divorciara, com o qual tanto – n' As Farpas, no Padre Amara, n' Os Maias – se zangara. Pois é. Há uma volta na vida dos homens, os mais sortudos, que é chegarmos a uma certa idade na qual, depois de anos a fio todos tensos e contraídos, finalmente conseguimos alguma calma e paz connosco próprios. Assim está este Eça, a divertir-se e a divertir-nos, com o mais singelo conto que lhe deu na veneta contar. É uma revisitação do bucolismo, fruto de uma inocência perdida e, depois, readquirida. Em A Cidade e as Serras, Eça - cansado de muito guerrear – faz pois as pazes com o país. Pena que isso aconteça nos últimos anos da sua vida, deixando a parte mais gostosa da escrita – a reescrita, precisamente - a metade. Não sei se ele previa a morte próxima, sei que se sente neste livro um bem-estar, uma felicidade, uma boa disposição contagiantes. Mesmo as personagens risíveis no livro não o são muito – não são ridicularizadas, como outrora os Palmas Cavalões, os Dâmasos Salcedes, os Primos Basílios, os Conselheiros Acácios. Em contrapartida, abundam as pessoas felizes e boas. Jacinto é mimado e poderia ser irritante de tão irritantemente rico, privilegiado e alheado da realidade? Sim, mas até eu - que sou dado a rancores de classe – o aceito como ele é, e gosto dele como é, despassarado e fútil, até crescer – em Tormes, em Portugal – e se tomar (já entrado te) um homem. E, para além de tudo, Jacinto é «bondoso». Este livro abre um mundo onde, se há personagens menores - as figuras de Paris - não há, como diria o Padre Américo, rapazes maus. Ele é «o meu bom tio», «o bom Melchior», «o bom Silvério», «o bom abade de S. José», «o bom Rebelo», «o bom D. Teotónio», «o bom Schopenhauer», o Visconde do Bom Sucesso... E até o narrador não tem problemas em dizer, com a candura de quem vê o mundo sem malícia, «mas concordei, porque sou bom, e nunca desalojarei um espírito do conceito onde ele encontra segurança».   


 * * *    
Não há uma idade para ler Eça. Qualquer uma é a idade certa, a altura certa, para nele mergulhar. Mas, se não há «altura certa», há uma altura factual, uma data, em que lemos pela primeira vez um dado livro. O prazer da leitura é intemporal? Sim, mas não vivemos (snif) fora do tempo e do espaço. Eu descobri o Eça num momento particular: no meio de crises brutais de asma que me levavam quase todos os dias ao hospital. O que senti quando li pela primeira vez A Cidade e as Serras? Alegria. Consolo nos maus momentos. Descoberta do mundo. Aprendizagem de Portugal. Sabedoria de vida. Salvo erro, foi o meu primeiro Eça, a minha introdução a Eça, o livro que me levou a devorar os outros Eças. Com excepção d' Os Maias, que ficaram mais uns anos a aguardar a minha visita, pois, lamento dizê-lo, era aquilo a que os profissionais do livro chamam um tijolo. Mas A Cidade e as Serras, esse, marchou tinha eu catorze anos. Já não me lembro se foi uma professora que falou com um entusiasmo convincente ou apenas um ar que me deu. Por acaso tínhamos o livro em casa - ajuda sempre que a nossa família tenha livros em casa. Vá lá uma pessoa saber porquê, mas é assim. Morava eu então na Calçada de Sant'Ana, aquela rua que serpenteia colina acima, quase do Rossio até ao Torel. É uma rua lite­rária mas pouca gente sabe isso: lá nasceu a Amália (na Martim Vaz, um afluente da calçada), lá morreu Camões (bem, há lá uma placa colocada em 1867), lá fica uma igrejinha que Eça tornou personagem num ou noutro romance. A calçada desce até uma bifurcação: a da Rua Arco da Graça, que para a direita vai dar ao Rossio e, para a esquerda, desagua uns quarteirões à frente no Hospital de S. José, e naquilo que no Hospital de S. José mais me interessava na altura: as Urgências. A asma é uma doença interessante, porque – tal como o ar – é invisível. Não há marcas exteriores, apenas o efeito. É talvez a doença que mais facilmente pode ser simulada, por esse motivo. Em contrapartida, não é pêra doce. A sensação de falta de ar não é das mais agradáveis. E qualquer asmático sabe que é quando se deita que as coisas pioram. Mas dormir é preciso. Foi, pois, a necessitar de oxigénio que degustei (fui degustando) estas páginas, numa mão-cheia de abafadas noites de Verão. Regressado do cinema, e antecipando mais um chato ataque de asma, ficava na cama a ler até que o sono vencia. Depois, o efémero vencedor era derrotado (interrompido) pela falta de ar, e eu lá me vestia para ir a pé, sozinho apesar dos meus catorze anos, às urgências do hospital de S. José a tomar a minha dose de aminofilina e, de novo a respirar, voltava para a cama pelas cinco da manhã, adormecendo de novo a ler mais umas páginas. O meu avô, que tinha morrido meses antes, e foi tão importante para mim como Afonso da Maia para Carlos, sempre me pareceu um modelo de bondade. E eu magicava: os adultos tendiam a ser cínicos e trocistas - porque sabiam mais coisas da vida que eu, mas o meu avô, que era mais experiente (mais velho), mais sábio (um autodidacta muito lido) e mais zurzido pelas intempéries (preso no Aljube, em 1938), mantinha uma doçura, uma amizade pelo bicho humano que me baralhava as coordenadas. E, com esforço, eu lá concluía: os cínicos de trinta, quarenta anos lá topariam coisas que eu ignorava, mas o meu avô tocava mistérios que eles nem sonhavam. O Eça que aqui nos é dado ler está a afastar-se, aos cinquenta anos, dos homens cínicos e a aproximar-se, com alguma melancolia coberta pelo manto diáfano da alegria, da bondade do meu avô. A vantagem de uma pessoa chegar à idade em que já pode ser prefaciador é que temos uma oportunidade – ou melhor, «uma janela de oportunidade» – para regressar ao livro onde fomos felizes. Fui feliz ao ler adolescente A Cidade e as Serras e feliz fui, agora, ao reler esta maravilha no metro, no autocarro, em cafés, num exame (nada de comiserações, eu apenas vigiava o exame). E sinto-me agora um bocadinho feliz ao acreditar – porque eu também sou bom, caramba – que dentro de segundos alguém vai começar a partilhar a minha experiência.   

 Rui Zink, Prefácio a A Cidade e as Serras, QuidNovi, 2010 (com supressões)

Disponível em  http://olga.wirenode.mobi/page/40

Capítulo I (início)



O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival.
No Alentejo, pela Extremadura, atravéz das duas Beiras, densas sebes ondulando por colina e vale, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os campos d'esta velha familia agrícola que já entulhava grão e plantava cepa em tempos d'el-rei D. Dinis. A sua quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o Tua e o Tinhela, por cinco fartas legoas, todo o torrão lhe pagava fôro. E serrados pinheirais seus negrejavam desde Arga até ao mar de Âncora. Mas o palácio onde Jacinto nascera, e onde sempre habitara, era em Paris, nos Campos Elíseos, nº 202.

Seu avô, aquele gordíssimo e riquíssimo Jacinto a quem chamavam em Lisboa o "D. Galião", descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta, rente de um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou numa casca de laranja e desabou no lagedo. Da portinha da horta saía nesse momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baetão verde e botas altas de picador, que, galhofando e com uma força fácil, levantou o enorme Jacinto – até lhe apanhou a bengala de castão de ouro que rolara para o lixo. Depois, demorando nele os olhos pestanudos e pretos:
— Oh Jacintho Galião, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas pedras?
E Jacinto, aturdido e deslumbrado, reconheceu o Senhor Infante D. Miguel!
Desde essa tarde amou aquele bom Infante como nunca amara, apesar de tão guloso, o seu ventre, e apesar de tão devoto o seu Deus! Na sala nobre da sua casa (à Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do «Seu Salvador», enfeitado de palmitos como um retábulo, e por baixo a bengala que as magnanimas mãos reaes tinham erguido do lixo. Emquanto o adorável, desejado Infante penou no desterro de Vienna, o barrigudo senhor corria, sacudido na sua sege amarela, do botequim do Zé-Maria em Belém à botica do Palácio nos Algibebes, a gemer as saudades do "anginho", a tramar o regresso do "anginho". No dia, entre todos bendito, em que a "Pérola" apareceu á barra com o Messias, engrinaldou a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelão e lona onde D. Miguel, tornado S. Miguel, branco, de auréola e asas de Arcanjo, furava de cima do seu corcel d'Alter o Dragão do Liberalismo, que se estorcia vomitando a Carta. Durante a guerra com o «outro, com o pedreiro livre» mandava recoveiros a Santo Tirso, a S. Gens, levar ao Rei fiambres, caixas de doce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retroz atochadas de peças que ele ensaboava para lhes avivar o ouro. E quando soube que o senhor D. Miguel, com dois velhos bahus amarrados sobre um macho, tomára o caminho de Sines e do final desterro - Jacinto Galião correu pela casa, fechou todas as janelas como em um luto, berrando furiosamente:
—Tambem cá não fico! tambem cá não fico!
Não, não queria ficar na terra perversa de onde partia, esbulhado e escorraçado, aquele Rei de Portugal que levantava na rua os Jacintos! Embarcou para França com a mulher, a senhora D. Angelina Fafes (da tão falada casa dos Fafes da Avelã); com o filho, o Cintinho, menino amarelinho, molezinho, coberto de caroços e leicenços; com a aia e com o moleque. Nas costas da Cantabria o paquete encontrou tão rijos mares que a senhora D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga do beliche, prometeu ao Senhor dos Passos d'Alcantara uma coroa de espinhos, de ouro, com as gotas de sangue em rubis do Pegu. Em Bayonna, onde arribaram, Cinthinho teve icterícia. Na estrada d'Orleans, numa noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam partiu, e o nédio senhor, a delicada senhora da casa da Avelã, o menino, marcharam três horas na chuva e na lama do exílio até uma aldeia, onde, depois de baterem como mendigos a portas mudas, dormiram nos bancos duma taberna. No Hotel dos Santos Padres, em Paris, sofreram os terrores dum fogo que rebentara na cavalhariça, sob o quarto de D. Galião, e o digno fidalgo, rebolando pelas escadas em camisa, até ao pátio, enterrou o pé nu numa lasca de vidro. Então ergueu amargamente ao céu o punho cabeludo, e rugiu:
—Irra! É demais!
Logo nessa semana, sem escolher, Jacinto Galião comprou a um príncipe polaco, que depois da tomada de Varsóvia se metera frade cartuxo, aquele palacete dos Campos Elísios, nº 202. E sob o pesado ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas se enconchou, descançando de tantas agitações, numa vida de pachorra e de boa mesa, com alguns companheiros de emigração (o desembargador Nuno Velho, o conde de Rabacena, outros menores), até que morreu de indigestão, dumalampreia de escabeche que lhe mandára o seu procurador em Monte-mór. Os amigos pensavam que a senhora D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a boa senhora temia a jornada, os mares, as caleças que racham. E não se queria separar do seu Confessor, nem do seu Médico, que tão bem lhe comprehendiam os escrúpulos e a asma.
—Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarara ela), ainda que me faz falta a boa água de Alcolena... O Cinthinho, esse, em crescendo, que decida.
O Cinthinho crescera. Era um moço mais esguio e lívido que um cirio, de longos cabelos corredios, narigudo, silencioso, encafuado em roupas pretas, muito largas e bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse e de sufocações, errava em camisa com uma lamparina através do 202; e os criados na copa sempre lhe chamavam a "Sombra". Nessa sua mudez e indecisão de sombra surdira, ao fim do luto do papá, o gosto muito vivo de tornear madeiras ao torno: depois, mais tarde, com a melada flor dos seus vinte annos, brotou nele outro sentimento, de desejo e de pasmo, pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rola, educada num convento de Paris, e tão habilidosa que esmaltava, dourava, concertava relógios e fabricava chapéus de feltro. No outono de 1851, quando já se desfolhavam os castanheiros dos Campos Elísios, o Cinthinho cuspilhou sangue. O médico, acarinhando o queixo e com uma ruga seria na testa imensa, aconselhou que o menino abalasse para o golfo Juan ou para as tépidas areias de Arcachon.
Cinthinho porém, no seu aferro de sombra, não se quiz arredar da Terezinha Velho, de quem se tornara, através de Paris, a muda, tardonha sombra. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu um resto de sangue; e passou, como uma sombra.
Três meses e três dias depois do seu enterro o meu Jacinto nasceu.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A Cidade e as Serras - questionário

Aqui está uma ajuda para A Cidade e as Serrasquestionário de leitura.
 

Serve para de forma ainda"suave" reforçarem o convívio com o texto de Eça de Queirós e preparar a interpretação de leitura de A Cidade e as Serras necessária para breve, no exercício escrito.




Cunha Barros, desenho, c. 1926. Antecipação da Lisboa do futuro.




Nota: ignorar o passo 4. do questionário, por ter um lapso no número da porta...

Quem é Jacinto?

 A Cidade e as Serras 

Está na altura de pensares nas várias personagens e nas reflexões que Eça de Queirós nos propõe.

Deixo-te com

JACINTO 

«Zé Fernandes ("homem das serras", que disso se orgulha) coloca, no centro da história que relata, Jacinto, uma figura em mudança. No início d'"A Cidade e as Serras", encontramo-lo eufórico com a Civilização; anos depois, Zé Fernandes observa nele sinais de cansaço: "notei que corcovava". Quando parte para as Serras, Jacinto vai desconfiado, mesmo temeroso; sobrevém, por fim a revitalização inesperada: a do corpo e a do espírito.

Em Paris, Jacinto é ele mesmo mais as geringonças inventadas por uma Civilização tentacular: aparelhos sofisticados (o fonógrafo, o telefone, o conferençofone,o teatrofone), modas bizarras, escovas e pentes de feitios engenhosos, uma enorme biblioteca e modos de vida supercivilizados deixam-no cada vez mais indiferente. Porque a Civilização tudo lhe dá, menos alegria de viver. Razão tinha o escudeiro Grilo, um "venerando preto" que um dia fixou, num diagnóstico insuperável, a doença de Jacinto:"- Sua Excelência sofre de fartura."

A regeneração dá-se no reencontro com as Serras, experiência decisiva de regresso às origens, nisso a que hoje chamamos Portugal profundo; nele desdobra-se uma Natureza aparentemente pura, mas não isenta de sofrimento. E contudo, os costumes e as coisas singelas, tal como a simplicidade dos alimentos, reconduzem Jacinto à alegria de viver e mesmo ao riso. O que não implica a recusa radical da Civilização, mas antes  a  busca  desse  "equilíbrio  de vida" e  da  efectiva Grã-Ventura que Zé Fernandes testemunha, por fim; o casamento e a paternidade acrescentam a tais qualidades uma outra: a fecundidade que na Cidade parecia cancelada.

Cabe ao Grilo resumir, outra vez com uma expressão lapidar, esse estádio final da mudança do amo: "- Sua Excelência brotou!" Jacinto já não é "Jacinto ponto final".»

Hora'EÇA - Um percurso pela vida e obra de  EÇA de QUEIRÓS
Disponível em  http://users.prof2000.pt/ano/alvide/eca/personagens_ilustres.htm>


domingo, 22 de fevereiro de 2015

Paris

"O desejo mais natural do homem, 
é saber o que vai no seu bairro e em Paris."

Eça de Queirós (bio)



 Hoje, venho trazer-vos as ruas de Paris dos finais do século XIX, o que só é possível porque a ciência, a técnica e a indústria se conjugaram para criar e generalizar o uso da fotografia.

Excertos do livro


"Logo nessa semana, sem escolher, Jacinto «Galeão» comprou a um príncipe polaco (...) aquele palacete dos Campos Elísios" (cap. I)



"Era um domingo silencioso, enovoado e macio, convidando às voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma) sugeri a Jacinto que subíssemos à Basílica do Sacré-Coeur, em construção nos altos de Montmartre."(cap. VI)
"Mas a Basílica em cima não nos interessou, abafada em tapumes e andaimes, toda branca e seca, de pedra muito nova, ainda sem alma." (cap. VI)

"...bairros estreitos e íngremes, de uma quietação de província" (cap. VI)

"Sob o céu cinzento, na planície cinzenta, a Cidade jazia toda cinzenta, como uma vasta camada de caliça e telha."
(cap. VI)







Aproveitem as ligações que vos proponho, para saberem mais sobre a Cidade de Paris  
e visitar o seu mais importante museu - o Musée du Louvre.

(1) Créditos: Todas as imagens aqui utilizadas foram recolhidas no sítio http://www.parisenimages.fr , um grande e extraordinário arquivo, propriedade da cidade de Paris, e cuja reprodução está, naturalmente, condicionada a fins didácticos.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

GERAÇÃO DE 70




Eça de Queirós, Jaime Batalha Reis, Antero de Quental e Oliveira Martins

Perfil de Eça de Queirós traçado por Jaime Batalha Reis

A Geração de 70 começou por ser constituída por um grupo de jovens intelectuais da última metade do século XIX, do qual fizeram parte alguns dos maiores vultos da literatura portuguesa, como Antero de Quental, Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Jaime Batalha Reis, Teófilo Braga e Guerra Junqueiro.

Este grupo de jovens afirmou-se como elite intelectual entre 1865, em Coimbra, data da polémica desencadeada por um texto de Antero de Quental  contra Feliciano de Castilho (polémica conhecida pelo nome de “Bom Senso e Bom gosto”), e 1871, data das Conferências do Casino Lisbonense, em Lisboa.

Na década de 1870, Portugal vivia os efeitos das políticas do Fontismo (derivado do nome de Fontes Pereira de Melo) e da Regeneração (mudança e modernização do país através de uma política de grandes obras públicas).

A Geração de 70, claramente voltada para os valores da educação e da cultura, insurgiu-se contra o progresso predominantemente material e mercantilista das autoridades e de alguma élite social. 

Manifestando um grande descontentamento face à situação política, cultural e social do país, os membros da Geração de 70 defendiam uma maior abertura e receptividade de Portugal à cultura europeia e a grande urgência de uma reforma cultural no país.

Esta élite intelectual, que incluia escritores, historiadores, diplomatas, jornalistas,  tinha assimilado ideias inovadoras da cultura europeia, nomeadamente através de leituras de autores franceses e alemães e do conhecimento de movimentos revolucionários estrangeiros, como a Comuna de Paris (1871). Os jovens da Geração de 70 protagonizaram a vontade de mudança, de abertura e de modernização cultural, política, artística, educacional e social no nosso país, nomeadamente através da “Questão Coimbrã” e das Conferências do Casino.


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Debate

DEBATER  
FREI LUÍS DE SOUSA, DE ALMEIDA GARRETT 
EM 2015

(O filme deste evento será analisado em aula na preparação do próximo debate)




Aguarda-se o envio das conclusões, a cargo da equipa do moderador. Podem enviar como comentário, para ser corrigido e publicado na página principal.


terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

S.O.S.

Como prometido, fica o complemento da aula (exercício formativo), para quem precisar. 
Atenção à gramática! 

O ator Rogério Samora como Frei Jorge, no filme Quem és tu? de João Botelho

'Clicar' sobe a imagem, para aumentar.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O figurino no teatro

 


Para terem uma antevisão, deixo algumas imagens de anos anteriores com o guarda-roupa que iremos utilizar. 

As ações decorreram em Runa (no antigo Hospital Real) e no Museu Municipal Leonel Trindade. 

Vejam se não ficam uma beleza - sérios, convicentes, verdadeiras personagens, isto é, fazendo o público centrar-se naquilo que representam.
Runa, 2009
Runa, 2009

16 maio 2009


"Podemos definir figurino para teatro como o modelo que representa o conjunto dos elementos visuais que se referem directamente ao corpo do actor e que se destinam a vestir a personagem que ele representa, em determinado contexto dramático. (...)




 Em Portugal é no séc. XVII que aparece, pela primeira vez, a referência a trajos para representações teatrais, embora se considere António Francisco, já dos finais do séc. XVIII, como o primeiro figurinista, ou vestuarista como então era designado."
Fonte: Museu Nacional do Traje

Muitos artistas portugueses criaram figurinos para teatro e cinema. Por exemplo, na versão de 1950 de Frei Luís de Sousa o guarda-roupa é de Alberto Anahory e no Quem és tu? é da autoria de Sílvia Alves.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Quem és tu?

Fica a cena lida em aula

Afinal, a Daniela, o Saramago e a Isabel fizeram boa figura!

O corpo e a voz do ator

50 anos separam estas duas representações.
 
Vejam, oiçam e julguem: qual a Maria mais interessante?


Frei Luís de Sousa, 1950, realizado por António Lopes Ribeiro



Quem és Tu? 2001, filme de João Botelho

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Sobrevivência(s)

Já tinha ouvido falar no filme mas nunca tive grande curiosidade em vê-lo. No entanto, quando me contaram um breve resumo do livro fiquei curiosa e decidi lê-lo.
 
A vida de Pi é um livro que retrata a coragem, a sobrevivência, a solidão, a persistência, o autodomínio, o desespero e a crença no impossível, com grande realismo.
O livro está dividido em três partes. Numa primeira parte, o autor descreve uma Índia cheia de tradições, cheiros e cores. Encontramos a família de Piscine Molitor Pattel, mais conhecido por Pi, todos eles muito cépticos em relação à religião e às crenças, à exceção de Pi que não encontrava nenhuma contradição em ter uma fé tripartida, visto que era Hindu, Muçulmano e Cristão ao mesmo tempo.
 

Na segunda parte do livro, o autor afasta-se do tema religião conseguindo que o tema continue a pairar, embora de uma forma mais abstrata, tendo isto a ver com a sobrevivência de Pi, após o naufrágio do navio onde seguia com a família com destino ao Canadá. Nesta segunda parte do livro, Martel descreve a luta pela sobrevivência que Pi teve de travar depois de ter ido parar a um barco salva-vidas tendo apenas como companhia uma zebra, uma hiena, um orangotango e um tigre de Bengala.
 

Esta segunda parte oscila entre um absurdo onde senti necessidade de ajustar o cérebro para o "modo de leitura de fantasia" porque estava a parecer-me um livro mais próximo da fantasia do que de outro género literário qualquer. No entanto, nunca me foi possível adaptar o cérebro para a fantasia porque de repente aconteciam coisas tão reais, descritas de uma forma tão vívida que acabavam por camuflar as partes em que o livro me parecia virado para um público mais juvenil. Esta foi, talvez, a parte que mais me provocou um misto de emoções porque nunca sabia o que a próxima página me traria.

Sobre a terceira e última parte, tenho a dizer que a li com um enorme nó na garganta.
Foi um golpe de mestre a segunda versão da história narrada por Pi para os japoneses que procuravam descobrir o que deu origem ao náufrago.
Adorei a escrita de Yann Martel e da forma como a história se foi desenvolvendo. É uma história que, sendo original, é ao mesmo tempo vulgar, expondo as necessidades primárias e medos que aproximam o Homem do animal quando está em causa a sobrevivência.
 

É um livro que, parecendo simples, é na verdade bastante complexo. É um livro que nos faz refletir sobre a vida, sobre os sonhos, sobre a perda e sobre tantas outras coisas... É um livro que nos faz acreditar que não existem impossíveis. É um livro que não tem qualquer intenção de converter mas que me mostrou uma visão da fé e da forma como a religião pode ser vivida que achei incrível.
 

No final da leitura deste livro cabe-nos a nós acreditar numa das versões, e eu, acreditando ou não em Deus, prefiro a história que envolve os animais do que a história nua e cruel que Pi teve de contar para que acreditassem nele.
Inês Santos nº17 11ºA

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Sugestão de cinema: letras, números, enigmas



Há bons motivos para ires ao cinema




Título original:The Imitation Game
Tipo de Filme:Thriller
Realizador:Morten Tyldum
Atores:Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Charles Dance e Mark Strong

Sinopse:
"Na liderança de um grupo de académicos, linguistas, campeões de xadrez e analistas, Turing foi reconhecido por quebrar o até aí indecifrável código da Enigma, a máquina utilizada pelos alemães na 2ª Guerra Mundial. Um retrato intenso e memorável de um homem brilhante e complicado, “O JOGO DA IMITAÇÃO” relata a história de um génio que sob extrema pressão ajudou a encurtar a guerra e, consequentemente, salvou milhares de vidas."




Alan Turing foi um cientista e matemático britânico que, durante a Segunda Guerra Mundial, decifrou vários códigos nazis. O "decifrador de códigos" é um dos matemáticos mais brilhantes da era moderna, um dos pais da «computação»,  e consguiu decifrar os códigos gerados pela máquina 'Enigma', a partir da qual os nazis enviavam as suas mensagens secretas.



Enigma era o nome da máquina eletro-mecânica de criptografia com rotores, utilizada tanto para criptografar como para descriptografar mensagens secretas, usada na Europa na década de 20. Foi adaptada pelas forças alemãs na década seguinte, pela facilidade de uso e a suposta indecifrabilidade do seu código.Terem conseguido desvendar as cifras da Alemanha nazi acelarou o final da Segunda Guerra Mundial, , poupando muitas vidas.






quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Leitura(s)

O livro que li tem o título de Longe do meu coração e foi escritor pelo autor português Júlio Magalhães. O tema central do livro é a emigração de vários portugueses para França, na década de 60, à procura de melhores condições de vida e para fugirem à miséria e à ditadura do seu país.
 

Na minha opinião, este livro tem vários aspetos positivos destacando-se, assim, que mesmo sendo um livro cuja base é a História de Portugal, mesmo quem não goste muito desta área gostará bastante do livro pois não é exaustivo com factos históricos e ainda para quem desconhece ou tem poucos conhecimento sobre a vida em Portugal nesta época ou os motivos desta grande emigração é tudo explicado no livro sem ser de forma maçadora; daí o livro poder ser lido por várias gerações. Este livro consegue ainda reforçar a ideia de que o povo português possui uma enorme vontade de trabalhar. Digo isto pois os portugueses tinham que emigrar clandestinamente para França, nas condições mais precárias, para um país novo e totalmente desconhecido mas com a ideia fixa de trabalhar bastante e construir uma riqueza e ainda enviar dinheiro para ajudar a família que deixara no seu país.
 

Outro aspeto positivo do livro é que no início do livro a vida da personagem não se encontra nas melhores condições, a sua vida no país que o viu crescer é péssima, tem que emigrar para um país totalmente desconhecido, o seu pai morre, tem que deixar a sua mãe sozinha no seu país, as condições péssimas que enfrenta ao emigrar clandestinamente, a morte do seu melhor amigo de infância e companheiro na viagem de emigração, as condições que tem que enfrentar no bidonville (nome dado ao bairro de portugueses emigrantes em França com condições péssimas – sem água canalizada, sem eletricidade, entre outras); mas a partir do momento em que a personagem principal começa a trabalhar neste país tudo muda radicalmente, o que dá a ideia que graças ao trabalho todos os sonhos e ambições são possíveis.
 

A forma como é descrita a emigração clandestina da personagem principal e do seu melhor amigo é feita de forma brilhante, com descrição de alguns dos perigos e riscos da viagem naquela época.
A escrita do autor é bastante clara, o que torna a leitura acessível a várias idades e gerações. A meu ver este livro retrata um período da História de Portugal em que a emigração está associada a problemas económicos no próprio país. Atualmente, Portugal enfrenta uma crise económica e associada a esta, está o aumento da emigração de pessoas que procuram melhores condições de vida. O que indica que as crises e os elevados níveis de emigração para além de estarem associados não são casos únicos na história de um país, mas, sim, momentos que se repetem várias vezes.


Ana Isabel Gomes, 11ºA - Nº5

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Diários


 

5 de Agosto de 1599
Querido Diário, eu sei que não tenho escrito ultimamente mas tem acontecido tantas coisas
Estava a ler Camões, o episódio da Inês de Castro e depois apareceu o Telmo com aquelas conversas de D. João de Portugal, ainda me custa tanto escrever o nome dele…
Ele continua a falar com Maria sobre aqueles assuntos que quero que ele não fale. Maria é muito frágil e não quero que Telmo continue a confidenciar com ela, ainda ficava abalada a minha pobre menina. E, para piorar, Manuel lançou fogo ao nosso palácio! Meu rico palácio, fui muito feliz nele, tudo isto por causa dos castelhanos que queriam ficar com o nosso palácio para fugir a peste em Lisboa e Manuel não queria isso e a solução que achou foi deitar fogo ao meu palácio, o nosso palácio.
Não sei se o pior foi ver o meu palácio em chamas ou ir para o palácio de D. João, eu disse a Manuel que não queria ir eu implorei para não ir, para ir para ali mas Manuel insistiu apesar de saber toda a minha história e aquela casa era como um livro de memórias. Eu procurei-o, eu não queria desistir mas depois de 7 anos de procura e não o ter encontrado, ele só poderia estar morto. Então decidi dar uma oportunidade a mim mesma para ser feliz e casei me com D. Manuel, e deste casamento nasceu Maria, minha queria filha, minha querida filha, tao pequenina mas tao adulta, mente de um adulto num corpo de criança. Mas a minha pobre menina, tao novinha mas tao doente, com tuberculose. Maria continuava a ter aqueles sonhos com D. João e quando nos mudamos para o palácio e ela viu aqueles retratos dele as perguntas não paravam.
Consegui acalmar a minha pequena filha e de seguida ela foi com Manuel e Telmo para Lisboa, não para meu descanso mas decidimos deixa-la ir e fiquei sozinha durante uns dias. Quando eles voltaram de Lisboa, um romeiro bateu a porta a minha procura. Parecia ser apenas uma pobre pessoa procura de dinheiro e comida, mas ele disse-me o que eu não queria ouvir, aquele romeiro disse-me que tinha sido enviado por D. João e que ele estava vivo. O mundo caiu me aos pés, eu casei-me com o homem que amava, enquanto continuava casada com o D. João, ou pior, eu já amava D. Manuel antes de casar com D. João. E Telmo vem dizer-me que aquele romeiro, era na actualidade, era D. João e ele estava ali, a minha frente, bem vivo.
Foi quando tudo se descarrilou, Manuel quis ir para um convento para limpar os seus pecados e obrigou-me a ir com ele, já estávamos os dois no convento quando a minha filha entrou, estava muito revoltada com a sociedade e expõe os seus sentimentos sobre tudo o que se estava a passar pela ultima vez… sim ultima vez. Ela morreu nos meus braços, nos meus e nos do pai, Manuel. A dor da perda é uma dor que nunca se cura, ela era tao novinha para acabar assim, mas a doença acabou com ela, e assim eu fui para o convento, tornei-me freira e cá estou eu, num quarto, num convento a limpar a minha alma, os meus pecados.   
Madalena de Vilhena


Ana Catarina Correia Libório 11ºA Nº3