Antero de Quental, Jaime Batalha Reis e Eça de Queirós
no tempo de estudantes em Coimbra
II
|
1
5
10
15
20
|
Antero de Quental e Jaime Batalha Reis eram muito diferentes, mas entendiam-se bem. Viveram e
trabalharam juntos. Percorreram amplas, luminosas e batidas praias onde se
passeavam e estendiam ao sol «com a voluptuosidade que só conhecem os poetas
e os lagartos adoradores da luz», como dizia Antero. […] Até Batalha Reis se
casar, costumavam passar os dois o verão perto de Torres Vedras, na Praia de
Santa Cruz, numa casinha de onde avistavam Peniche e, ao longe, os ilhéus das
Berlengas - «Numa pequeníssima casa, ao rés-do-chão, feita de adobes rebocados,
com a porta sempre aberta para um campo valado de piteiras, vivíamos, o
Antero e eu, um ou dois meses, quase inteiramente sós.»
É aí
que passam o verão de 1870. O mesmo acontece no verão de 1871, o ano da
Comuna de Paris: «Oliveira Martins teve de assistir sozinho, longe dos
amigos, ao grande acontecimento que confusamente se pressentia: a Comuna de
Paris, no termo da guerra franco-prussiana. Antero aguardara as notícias da
guerra na praia de Santa Cruz, cerca de Torres Vedras, onde passava as férias
com Jaime Batalha Reis.»[1]
Como
para os arrancar dessa beatitude à beira-mar, Eça de Queirós escrevia-lhes por vezes para aí as suas cartas
provocatórias:
«Que fazem vocês aí nesse areal ‘batido da
fria onda’, como diz a balada? Como se suportam? Como se não despedaçaram
ainda? Têm-se banhado? Têm escrito? Têm dormido? Têm sequer vivido? O mar é
um companheiro monótono que possui uma ideia só: vocês são dois camaradas
vulgares, que possuem talvez ao todo, com grande esforço, três ideias. Como
se arranjam aí com essas quatro ideias, para viverem pessoalmente, para podem
criticar o seu tempo, para poderem dar de pastar ao ideal? Sabem vocês ao
menos o que vai por essa escura Europa?»[2]
|
[1] António
José Saraiva, in Tertúlia Ocidental.
Disponível em https://teresamarques2009.wordpress.com/
eca-de-queiros/as-conferencias-do-casino/
[2] «Eça de
Queirós e Jaime Batalha Reis. Cartas e Recordações do seu Convívio», Beatriz
Cinatti Batalha Reis, p. 8.
CORREÇÃO
1.1. Os vocábulos «beatitude» (l. 13) e
«provocatórias» (l.15) mantêm entre si uma relação semântica de
- oposição.
1.2. O uso do advérbio “confusamente” (l. 10) visa
- realçar a falta de certezas quanto
às notícias sobre a Comuna de Paris .
1.3. Em «1871, o ano da Comuna de Paris»
(ll.8-9), o elemento sublinhado desempenha a função sintática de
- complemento do nome.
1.4. Na frase « Antero de Quental e
Jaime Batalha Reis eram muito diferentes», o verbo pertence à subclasse dos
- copulativos.
1.5. Na carta, Eça recorre à sucessão de frases interrogativas (ll.
15-17) para
- desafiar os interlocutores.
1.6.
Os
elementos sublinhados em «É aí que passam o verão de 1870. O mesmo
acontece no verão de 1871» (l.8) contribuem para a coesão gramatical
- referencial.
1.7. Em «para poderem dar de pastar ao ideal» (l.21) está
presente uma
-
metáfora.
2. Tripla adjetivação, anteposta
3. (...) oração subordinada adjetiva relativa restritiva
4. «um companheiro monótono» - predicativo do sujeito; «que»- sujeito.
TEXTO DO GRUPO I
(PARA REALIZAÇÃO DA SÍNTESE)
I
TEXTO
«Ao percorrer rapidamente
os Sonetos, o panorama geral que se
nos oferece é, acima de tudo, o de uma incessante inquietação espiritual, a
infinita procura de qualquer coisa capaz de conceder um sentido ou uma
finalidade à existência humana. Tal entidade aparece quase sempre sob contornos
vagos ou indefinidos e (sobretudo nos sonetos mais antigos) pode assumir o nome
de Deus – um Deus que infunde nos homens a aspiração de um ideal sempre mais
alto, um Deus por vezes suscetível de motivar a esperança ou mesmo a fé no
sujeito […], mas que pode surgir também como o pai impiedoso ou indiferente que
abandonou o seu filho e o deixou irremediavelmente só […].
É sob o signo deste
sujeito de certo modo entregue a si próprio e vítima de uma sensação de
abandono que se colocam os Sonetos, cujo
impulso dominante consiste na insatisfação perante um real sentido como
demasiado frustrante ou limitado, projetando o eu num ideal mais ou menos onírico ou imaginário onde tudo se
realizaria na sua perfeição e na sua plenitude.
[…] o clima prevalecente
na globalidade dos Sonetos é o de uma
progressiva falência dessa mesma vontade, como que arrastada pelo já referido
pendor visionário, mas também por uma espécie de tristeza congénita ao sujeito,
motivada por uma lúcida consciência da imperfeição humana […] e ao mesmo tempo
pela noção de que os factos da vida terrena não nos reservam qualquer alegria.»
(237 palavras)
Fernando Pinto do Amaral
Tópicos de sentido a manter
·
Nos
Sonetos de Antero há
-
inquietação
espiritual,
- procura de sentido para a existência humana.
·
Há
insatisfação perante um real sentido como frustrante ou limitado.
·
O
sujeito poético - entregue a si próprio, com sensação de abandono.
·
Só
num ideal imaginário tudo se realizaria na perfeição/plenitude.
·
O
clima da maioria dos Sonetos: falência
da vontade, tristeza congénita ao sujeito, motivada por lúcida consciência da
imperfeição humana

