sexta-feira, 28 de abril de 2017

Antero, Eça e Batalha (texto do exercício+correção)


 Antero de Quental, Jaime Batalha Reis e Eça de Queirós 
no tempo de estudantes em Coimbra 
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Antero de Quental e Jaime Batalha Reis eram muito diferentes, mas entendiam-se bem. Viveram e trabalharam juntos. Percorreram amplas, luminosas e batidas praias onde se passeavam e estendiam ao sol «com a voluptuosidade que só conhecem os poetas e os lagartos adoradores da luz», como dizia Antero. […] Até Batalha Reis se casar, costumavam passar os dois o verão perto de Torres Vedras, na Praia de Santa Cruz, numa casinha de onde avistavam Peniche e, ao longe, os ilhéus das Berlengas - «Numa pequeníssima casa, ao rés-do-chão, feita de adobes rebocados, com a porta sempre aberta para um campo valado de piteiras, vivíamos, o Antero e eu, um ou dois meses, quase inteiramente sós.»
É aí que passam o verão de 1870. O mesmo acontece no verão de 1871, o ano da Comuna de Paris: «Oliveira Martins teve de assistir sozinho, longe dos amigos, ao grande acontecimento que confusamente se pressentia: a Comuna de Paris, no termo da guerra franco-prussiana. Antero aguardara as notícias da guerra na praia de Santa Cruz, cerca de Torres Vedras, onde passava as férias com Jaime Batalha Reis.»[1]
Como para os arrancar dessa beatitude à beira-mar, Eça de Queirós escrevia-lhes por vezes para aí as suas cartas provocatórias:
«Que fazem vocês aí nesse areal ‘batido da fria onda’, como diz a balada? Como se suportam? Como se não despedaçaram ainda? Têm-se banhado? Têm escrito? Têm dormido? Têm sequer vivido? O mar é um companheiro monótono que possui uma ideia só: vocês são dois camaradas vulgares, que possuem talvez ao todo, com grande esforço, três ideias. Como se arranjam aí com essas quatro ideias, para viverem pessoalmente, para podem criticar o seu tempo, para poderem dar de pastar ao ideal? Sabem vocês ao menos o que vai por essa escura Europa?»[2] 



[1] António José Saraiva, in Tertúlia Ocidental. Disponível em https://teresamarques2009.wordpress.com/ eca-de-queiros/as-conferencias-do-casino/
[2] «Eça de Queirós e Jaime Batalha Reis. Cartas e Recordações do seu Convívio», Beatriz Cinatti Batalha Reis, p. 8.

 CORREÇÃO
1.1. Os vocábulos «beatitude» (l. 13) e «provocatórias» (l.15) mantêm entre si uma relação semântica de
                 - oposição.

1.2. O uso do advérbio “confusamente” (l. 10) visa
                 realçar a falta de certezas quanto às notícias sobre a Comuna de Paris .     

1.3. Em «1871, o ano da Comuna de Paris» (ll.8-9), o elemento sublinhado desempenha a função sintática de
                          -  complemento do nome.

1.4. Na frase « Antero de Quental e Jaime Batalha Reis eram muito diferentes», o verbo pertence à subclasse dos
    - copulativos.

1.5. Na carta, Eça recorre à sucessão de frases interrogativas (ll. 15-17) para
       -    desafiar os interlocutores.
 
1.6. Os elementos sublinhados em «É que passam o verão de 1870. O mesmo acontece no verão de 1871» (l.8) contribuem para a coesão gramatical
                     - referencial.
 
1.7. Em «para poderem dar de pastar ao ideal» (l.21)  está presente uma
-   metáfora.
 
2. Tripla adjetivação, anteposta
3. (...)  oração subordinada adjetiva relativa restritiva
4. «um companheiro monótono» - predicativo do sujeito; «que»- sujeito.



TEXTO DO GRUPO I 
(PARA REALIZAÇÃO DA SÍNTESE) 

I
TEXTO
«Ao percorrer rapidamente os Sonetos, o panorama geral que se nos oferece é, acima de tudo, o de uma incessante inquietação espiritual, a infinita procura de qualquer coisa capaz de conceder um sentido ou uma finalidade à existência humana. Tal entidade aparece quase sempre sob contornos vagos ou indefinidos e (sobretudo nos sonetos mais antigos) pode assumir o nome de Deus – um Deus que infunde nos homens a aspiração de um ideal sempre mais alto, um Deus por vezes suscetível de motivar a esperança ou mesmo a fé no sujeito […], mas que pode surgir também como o pai impiedoso ou indiferente que abandonou o seu filho e o deixou irremediavelmente só […].
É sob o signo deste sujeito de certo modo entregue a si próprio e vítima de uma sensação de abandono que se colocam os Sonetos, cujo impulso dominante consiste na insatisfação perante um real sentido como demasiado frustrante ou limitado, projetando o eu num ideal mais ou menos onírico ou imaginário onde tudo se realizaria na sua perfeição e na sua plenitude.
[…] o clima prevalecente na globalidade dos Sonetos é o de uma progressiva falência dessa mesma vontade, como que arrastada pelo já referido pendor visionário, mas também por uma espécie de tristeza congénita ao sujeito, motivada por uma lúcida consciência da imperfeição humana […] e ao mesmo tempo pela noção de que os factos da vida terrena não nos reservam qualquer alegria.»

(237 palavras)
Fernando Pinto do Amaral

Tópicos de sentido a manter
·        Nos Sonetos de Antero há
-       inquietação espiritual,
-       procura de sentido para a existência humana.
·        Há insatisfação perante um real sentido como frustrante ou limitado.
·        O sujeito poético - entregue a si próprio, com sensação de abandono.
·        Só num ideal imaginário tudo se realizaria na perfeição/plenitude.
·        O clima da maioria dos Sonetos: falência da vontade, tristeza congénita ao sujeito, motivada por lúcida consciência da imperfeição humana




 

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Antero de Quental - Bom senso e bom gosto


BOM-SENSO E BOM-GOSTO

CARTA
AO EXCELENTISSIMO SENHOR
ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO
POR
Anthero do Quental

COIMBRA
IMPRENSA DA UNIVERSIDADE
1865

«Ex.mo Sr.

Acabo de ler um escripto de v. ex.ª onde, a proposito de faltas de bom-senso e de bom-gosto, se falla com aspera censura da chamada eschola litteraria de Coimbra, e entre dois nomes illustres se cita o meu, quasi desconhecido e sobre tudo desambicioso.(...) 

O que se ataca na eschola de Coimbra (talvez mesmo v. ex.ª o ignore, porque ha malevolos innocentes e inconscientes), o que se ataca não é uma opinião litteraria menos provada, uma concepção poetica mais atrevida, um estylo ou uma idêa. Isso é o pretexto, apenas. Mas a guerra faz-se á independencia irreverente de escriptores, que entendem fazer por si o seu caminho, sem pedirem licença aos mestres, mas consultando só o seu trabalho e a sua consciencia. A guerra faz-se ao escandalo inaudito d'uma litteratura desaforada, que cuidou poder correr mundo sem o sello e o visto da chancelharia dos grãos-mestres officiaes. A guerra faz-se á impiedade d'estes hereges das lettras, que se revoltam contra a auctoridade dos papas e pontifices, porque, ao que parece, ainda a luz de cima lhes não escreveu nas frontes o signal da infallibilidade. Faz-se contra quem entende pensar por si e ser só responsavel por seus actos e palavras...

Agora quem move estes ridiculos combates de phrases é a vaidade ferida dos mestres e dos pontifices; é o espirito de rotina violentamente incommodado por mãos rudes e inconvenientes; é a banalidade que quer dormir socegada no seu leito de ninharias; é a vulgaridade que cuida que a forçam—nós só lhe queremos puchar as orelhas!
Isto, resumido em poucas palavras, quer dizer: combatem-se os hereges da eschola de Coimbra por causa do negro crime de sua dignidade, do atrevimento de sua rectidão moral, do attentado de sua probidade litteraria, da impudencia e miseria de serem independentes e pensarem{6} por suas cabeças. E combatem-se por faltarem ás virtudes de respeito humilde ás vaidades omnipotentes, de submissão estupida, de baixeza e pequenez moral e intellectual.

V. ex.ª, com a imparcialidade que todos lhe conhecemos, deve confessar que uma guerra assim feita é não só mal feita, mas tambem pequena e miseravelmente feita. Mas é que a eschola de Coimbra commetteu effectivamente alguma cousa peior de que um crime—commetteu uma grande falta: quiz innovar. (...)

Levanto-me quando os cabellos brancos de v. ex.ª passam deante de mim. Mas o travesso cerebro que está debaixo e as garridas e pequeninas cousas, que sahem d'elle, confesso não me merecerem nem admiração nem respeito, nem ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança. V. ex.ª precisa menos cincoenta annos de edade, ou então mais cincoenta de reflexão.
É por estes motivos todos que lamento do fundo d'alma não me poder confessar, como desejava, de v. ex.ª

Coimbra 2 de Novembro de 1865.»

Antero de Quental

Evolução

Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo 
tronco ou ramo na incógnita floresta... 
Onda, espumei, quebrando-me na aresta 
Do granito, antiquíssimo inimigo... 

Rugi, fera talvez, buscando abrigo 
Na caverna que ensombra urze e giesta; 
O, monstro primitivo, ergui a testa 
No limoso paul, glauco pascigo... 

Hoje sou homem, e na sombra enorme 
Vejo, a meus pés, a escada multiforme, 
Que desce, em espirais, da imensidade... 

Interrogo o infinito e às vezes choro... 
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro 
E aspiro unicamente à liberdade. 

Antero de Quental, in "Sonetos"