domingo, 17 de fevereiro de 2019

Lisboa underground - "As histórias são o triunfo da vida"

Para o J, participante no CONCURSO NACIONAL DE LEITURA - prova concelhia - e para todos os interessados no livro DEIXEM PASSAR O HOMEM INVISÍVEL, de Rui Cardoso Martins, ficam desenhos originais sobre o livro criados por colegas de Artes da HN-2013-14 (ver mais desenhos) e  um texto do também crítico e escritor Pedro Mexia.



Lisboa underground

Pedro Mexia
29 de Julho de 2009 
"Uma cidade mal feita e engenhosa, toda ligada debaixo do chão, em camadas de arqueologia e história.
Todos os lisboetas sabem o que acontece a Lisboa quando chove muito: a cidade fica caótica, com inundações e acidentes, é o fim do mundo.
Rui Cardoso Martins começa o seu segundo romance com uma dessas chuvadas diluvianas que se abate sobre Lisboa, e a água invade tudo durante duzentas e tal páginas: "Escorria pela cidade e mais chegava pelos veios que desciam das colinas, por arroios adormecidos e pelas calhas dos elétricos, numa competição de rios sem nome, ribeiras acabadas de nascer, no meio das avenidas e praças, entrando grossa e gelada para dentro dos subterrâneos (...)" (pág. 173).
É para um subterrâneo, mais precisamente para um tubo de esgoto, que são arrastados dois transeuntes, um advogado cego e um miúdo de oito anos. Num incrível "tour de force", o romancista mantém-nos presos nesse cano gigantesco até ao fim, quase sem luz, às apalpadelas, encontrando apenas ratos, dejetos e ossadas.
É um pesadelo descrito com uma precisão de linguagem que ajuda a manter intacta a claustrofobia. Engolidos pela terra, cheios de fome, frio e medo, os dois acidentais companheiros contam histórias para se manterem vivos: " (...) o que os podia guiar no espaço e no tempo, e dar-lhes forças, enormes e incomparáveis com qualquer desafio recente que se lhes colocara, era a narrativa. Era falarem e contarem coisas um ao outro, e histórias e livros, tudo o que aparecesse nas suas cabeças" (pág. 72). 
O miúdo é muito novo, e tem pouca história, embora já alguns infortúnios. O adulto, em contrapartida, tem uma vida inteira de histórias, quase todas ligadas à sua cegueira.
Ele um "homem invisível" (corruptela de "invisual") atormentado pelo desastre que o cegou em pequeno e que o deixou longe do mundo. António, o cego, não é uma alegoria, e faz questão de o garantir, nada de cegueiras metafóricas, ele é um homem que não vê, que já não vê, e que recusa paternalismos e piedades. Os pais andaram em médicos e curandeiros, até que ele perdeu a esperança, pelo menos a esperança de voltar a ver, porque ele tem mais esperança do que as pessoas que veem.
Rui Cardoso Martins, que conhecemos como atento cronista e repórter de tribunal, joga com os clichés sobre ceguinhos a vender lotaria e depois fala da velocidade com que os cegos andam e que não sabemos bem qual é, da sua obsessão com a limpeza, os joelhos que os guiam entre obstáculos, a lascívia do seu toque. Se há alguma alegoria nestes cegos é apenas na medida em que Lisboa é mostrada como uma cidade em dois mundos: o visível e o invisível. E, como na crença religiosa, o invisível é o mais importante.
O invisível aqui é a Lisboa "underground", a Lisboa de boqueirões, valas comuns, águas pluviais, passagens secretas, estacas. É uma Lisboa que os lisboetas vão descobrindo a cada pequena catástrofe, a cada obra nova. Lisboa é uma cidade ao mesmo tempo mal feita e engenhosa, toda ligada debaixo do chão, em camadas de arqueologia, de história, de higiene pública.
Rui Cardoso Martins convoca o Grande Terramoto, as cheias de 1967, os incêndios, todas as tragédias de uma cidade que tem no seu código genético um grande terramoto futuro, o terramoto que vai ser a sua destruição. É pois um tom catastrófico, o deste romance, que se afasta da tragicomédia autobiográfica e regionalista do muito recomendável "E se eu gostasse muito de morrer" (2006).
As personagens principais estão aprisionadas, mas "Deixem passar o homem invisível" vai percorrendo Lisboa, por cima e por baixo. De São Sebastião ao Cais das Colunas, é uma viagem por uma perigosa cidade de túneis, às vezes tão infecta como a "Cloaca Máxima" da Roma Antiga. Tal como os túneis, as histórias das pessoas estão todas ligadas, mesmo a daqueles dois sinistrados, e se o romancista força um pouco a nota, também consegue tornar pungente essa correspondência entre o invisível material e o invisível da alma. Alma, diga-se, num sentido estritamente materialista, pois são incontáveis as referências céticas e cáusticas à religiosidade, quase sempre vista como um lastro invisível de crendices num país sofredor. Há uma passagem notável em que uma personagem secundária (e não totalmente conseguida) desmonta todos os milagres atribuídos a Cristo. É um mágico, esse homem, e acredita mais em Houdini do que em Jesus, mas ainda assim introduz a necessidade de um milagre, sem o qual nada faz sentido.
Enquanto os bombeiros trabalham, durante duzentas páginas, enquanto os protagonistas sobrevivem, durante duzentas páginas, é sobre este milagre, possível ou impossível, que vamos pensando: "O dia chegara a Lisboa, como sempre. Fenícios, cartagineses, romanos, muçulmanos, cristãos nas margens do Tejo olhavam o sol a tocar a fortificação da colina, todas as manhãs de todos os séculos (...), aqui em baixo os comerciantes abasteceram os navios do Império romano, o necrotério debaixo do banco comercial, caves de pedra grossa na Rua da Conceição, descobertas em 1755, uma vez por ano bombeia-se a água e descemos às termas romanas da Baixa, que não são termas, se calhar guardavam pasta de peixe e ânforas. Mas as águas, dizia o povo, curavam a cegueira, uma nascente brotou ali, quente, sulfurosa, no dia do Grande Terramoto. Quando a terra parou, e o maremoto retrocedeu, e o fogo se extinguiu, os cegos de Lisboa passaram a ir lá molhar os olhos, ainda hoje há excursões de cegos, cada um acredita no que quer, Deus distribuiu esperanças infundadas, e outras razoáveis, é por isso que as pessoas vivem à espera do que lhe falta acontecer" (pág. 217).
Enquanto esperamos, acontece tudo e não acontece nada: anotações jornalísticas exatas, compaixão humanista, farpas ao estado da Justiça. E fragmentos, trocadilhos, evocações tristes, uma existência sempre à espera de um milagre. Nem que "milagre" seja o nome que nós damos aos truques."

Rui Cardoso Martins, na nossa escola, em dezembro de 2013

 António, também conhecido nas suas costas por aquele advogado que é cego, ou aquele advogado invisual, ou aquele ceguinho que tirou advocacia, depende de quem o via e a que distância, visitava a Igreja de São Sebastião da Pedreira pela segunda vez na vida.
António tinha hábitos bizarros como gostar de arte e ir a exposições, e juntara durante anos argumentos para dizer como era isso possível no seu caso, até que os abandonou porque, concluiu, quem precisa da explicação não merece ouvi-la.


 Algumas questões a discutir:
·         António e João vão criando um sentimento de amizade muito profundo mas sem saberem que as suas vidas já se tinham cruzado anteriormente. O que aconteceu, afinal?
·         Serip, mágico, ilusionista e filósofo, é uma personagem bastante peculiar e contribui para o desenvolvimento da história. Como? 
·         Este livro também pode ser visto como de crítica e ironia à nossa sociedade, costumes e à forma de viver do Homem atual?
·         O Título – é um trocadilho, um paradoxo. Tem algum significado especial?
·         Que preocupação houve ao retratar este cego?
·         O livro é uma metáfora sobre Portugal - um país sofredor que tenta sobreviver?
·         O livro é uma parábola sobre a condição humana em geral?


SABER MUITO + ("A Vida Triunfa"-viagem com o autor-jornalista Alexandra Lucas Coelho)

Lisboa

Como mostraram curiosidade relativamente à ideia de partida do livro - a terra que «engole» as personagens, deixo alguns apontamentos sobre os acontecimentos referidos em aula.
Julgas que conheces Lisboa?
Lisboa subterrânea
BURACO ENGOLE AUTOCARRO EM CAMPOLIDE Um autocarro de passageiros foi literalmente engolido ao início da manhã desta terça-feira por um buraco de grandes dimensões, provocado por um aluimento de terras, junto à estação de comboios de Campolide.

Ler mais em: https://www.cmjornal.pt/portugal/detalhe/buraco-engole-autocarro-em-campolide
E quanto a ser engolido pela terra...
novembro de 2003 - Buraco engole autocarro de passageiros em Campolide, Lisboa
novembro de 2009| "Uma parte do pavimento da Rua Maria da Fonte, na Graça, em Lisboa, cedeu e «engoliu» um veículo ligeiro. [...] Por ironia, na referida rua já funcionou a direcção de estradas de Lisboa."
16 de março 2018| "O mau tempo que se tem feito sentir nos últimos dias fez com que um buraco de aproximadamente três metros de diâmetro se abrisse em Belém, Lisboa"

Gostas de mistérios? 
Queres chegar onde outros nunca foram? 
Lê o livro  Deixem Passar o Homem Invisível !
Ouve aqui a entrevista a Rui Cardoso Martins
"Durante uma grande enxurrada em Lisboa, um homem - cego desde os 8 anos, advogado - cai numa caixa de esgoto aberta, situada junto da igreja de S. Sebastião da Pedreira. Na mesma altura, um escuteiro que regressava de uma atividade na mesma igreja é também arrastado para o mesmo esgoto. 
É a viagem de ambos, através de uma Lisboa subterrânea, enquanto cá fora são tomadas todas as medidas para os salvarem, que o autor nos conta neste segundo livro. Mas é também a entreajuda, a cumplicidade entre o cego e a criança, naquela terrível aventura.
Pelo meio, as histórias de um ilusionista - Seripe de nome artístico, na realidade Pires ao contrário -, as recordações do homem cego do tempo antes de aquilo acontecer, a história de um camaleão que não acertava com a cor, e tantas outras tornam a leitura deste livro extremamente aliciante." (ver Wook)
Deixem Passar o Homem Invisível de Rui Cardoso Martins