quinta-feira, 6 de março de 2014

Crítica


Quando a morte nos conta uma história temos todo o interesse em escutá-la. Assumindo o papel de narrador em A Rapariga Que Roubava Livros, do romancista  Markus Zusak, vamos ao seu encontro na Alemanha, por ocasião da segunda guerra mundial, onde ela tem uma função muito activa na recolha de almas vítimas do conflito. E é por esta altura que se cruza pela segunda vez com Liesel, uma menina de nove anos de idade, entregue para adopção, que já tinha passado pelos olhos da morte no funeral do seu pequeno irmão. Foi aí que Liesel roubou o seu primeiro livro, o primeiro de muitos pelos quais se apaixonará e que a ajudarão a superar as dificuldades da vida, dando um sentido à sua existência. (...)  Ao longo dos anos, Liesel continuará a dedicar-se à prática de roubar livros e a encontrar-se com a morte, que irá sempre utilizar um registo pouco sentimental embora humano e poético, atraindo a atenção de quem a lê para cada frase, cada sentido, cada palavra. Um livro soberbo que prima pela originalidade e que nos devolve um outro olhar sobre os dias da guerra no coração da Alemanha e acima de tudo pelo amor à literatura.
 
(...) Variando entre a inocência e a dor de uma forma muito intensa, A rapariga que roubava livros (...) é uma obra que não passa despercebida, um retrato duro do que se passou no interior da Alemanha durante a segunda guerra mundial.
 
Conhecemos a perspectiva inocente de crianças que não sabem o que é a guerra, que não entendem os seus motivos, que não conhecem o seu horror. Ao longo da história, acompanhamos o crescimento de Liesel e a sua gradual maturação de uma forma muito simples, quase despercebida, sendo apenas perceptível em termos comparativos quando olhamos para o passado e nos apercebemos de toda a evolução pessoal da personagem e dos seus amigos, à semelhança do que se passa na vida real. Trata-se, portanto, de uma história um tanto ou quanto ingénua, cuja simplicidade se complexifica à medida que a guerra se começa a tornar compreensível e, logo, mais próxima e desumana.
 
De início, estranhei um pouco ser a personagem Morte a narrar os acontecimentos, o que me deixou um pouco apreensiva acerca do que o livro poderia conter. Apesar disso, ao longo das páginas perdi-me nesta história maravilhosa sobre uma criança que ama livros, um pai que luta pelo seu sonho artístico, uma mãe dura que defende a sua família e um amigo judeu que muda a vida desta família e, não podia deixar de ser, pela Morte que está apaixonada por uma menina cuja vida só lhe trouxe sofrimento mas que, mesmo assim, não deixa de ser feliz."
 
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"A rapariga que roubava livros é um romance cujo narrador é a Morte, que se mostra uma personagem bastante observadora e curiosa relativamente à espécie humana, num contexto de guerra, preocupando-se com os seus hábitos, o seu quotidiano, enquanto desempenha as suas funções, isto é, o transporte das almas. É enquanto trabalha que conhece Liesel, a protagonista, vendo-a por três vezes, entre 1939 e 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, o ambiente histórico em que decorre a ação.

A Morte é das personagens de que mais gostei ao longo da obra. Neste caso específico, a morte não nos é dada como boa ou má, simplesmente como alguém que desempenha as suas funções. Até porque como ela afirma, no início do livro, com muito humor negro: “Posso ser amável. Agradável. Afável. E isso só nos A’s”. (...)
Liesel é a protagonista e outra das personagens que mais me cativou. Foi enviada pela sua mãe, que era comunista, juntamente com o irmão, para uma família adoptiva, perdendo o irmão nessa mesma viagem. É durante o enterro do irmão, que ela rouba o primeiro livro -“O Manual do Coveiro” e é, neste momento, que a Morte se interessa por ela. Liesel é uma menina pobre, que vive numa cidade intitula de Himmel, cidade essa que vive entre o medo e a pobreza trazida pela guerra. Através da sua vida e das pessoas que com ela se cruzam, presenciamos um regime discriminatório e um povo que se deixa levar pelo medo ou que se deixa cegar pelo líder forte e carismático, que é Hitler.


Esta menina passa por várias provações ao longo da narrativa, algumas perdas e ao ler as suas peripécias são várias as mensagens que conseguimos captar. Desde a relação que ela tem com o seu melhor amigo Rudy, que revela que a amizade é tudo e que os amigos são o alicerce na nossa vida, até mostrar-nos ainda que nunca devemos deixar nada por fazer ou dizer, pois não sabemos o dia de amanhã. (...)


Rudy Steiner é o melhor amigo de Liesel, com quem esta vive as suas peripécias. Com seis irmãos Rudy vive entre a fome e a vontade de conquistar algo. É, sem dúvida, uma das personagens que mais gostei de conhecer. Outra personagem que merece ser notada é Hans Hubermann, o pai adoptivo de Liesel. Sendo uma das personagens mais sensíveis e humanas da trama, é portador de um coração do tamanho do mundo e está sempre disposto a ajudar os que mais precisam.

Outra personagem curiosa é Rosa Hubermann, a mãe adoptiva de Liesel, que é a típica pessoa que se esconde dentro da sua carapaça de pessoa dura, mas que no fundo é um coração de ouro. É uma mulher que se preocupa sempre com os outros e que, por detrás do escudo que cria, é uma pessoa incrível.

Finalmente, há uma personagem que vai mudar todo o viver de Liesel e do seu mundo familiar - Max Vanderburg, que foi um judeu acolhido pela família Hubermann. Max é a personificação de todos os judeus descriminados, que veem os seus direitos serem violados e que vive entre o medo, o desespero e até o ódio perante Hitler e por tudo o que o mesmo o obriga a passar e a sofrer, pelas ideias racistas e anti-semitas. Max partilha uma grande amizade com a pequena Liesel, amizade essa que toma contornos tão sinceros e mágicos, que é impossível não nos sensibilizar.

“A rapariga que roubava livros” é, assim, um livro que nos mostra a inocência da infância e a realidade de uma guerra, onde muito foi perdido, transmitindo-nos sempre a ideia que a felicidade se encontra patente nas mais pequenas coisas e que poderá estar mesmo ao nosso lado, sem darmos por ela, até ser tarde de mais.

 

O autor, Markus Zusak, nasceu na Austrália, filho de mãe alemã e pai austríaco; foi "ao ouvir as histórias contadas pelos seus pais, acerca dos nazis e do que os mesmos haviam passado nesta época tão violenta e conturbada, que nasceu a ideia deste livro, cujo melhor achado narrativo é ter como narrador a Morte, personagem que observa, critica e comenta as atitudes da espécie humana."
 
Neste livro, o romancista leva-nos a refletir sobre a presença da morte e o ambiente de violência em tempo de guerra, e sobre as formas de resistência e de apego à vida, das quais se destacam a escrita e a leitura de livros, que vão ajudar a dar sentido à existência.



Ficha técnica
Editor: Editorial Presença
Colecção: Grandes Narrativas
Ano de Edição/ Reimpressão: 2008
N.º de Páginas: 236

FONTES:
http://folhasdepapel.wordpress.com/2008/10/28/a-rapariga-que-roubava-livros-de-markus-zusak/
http://magia-livros.blogspot.pt/2011/06/rapariga-que-roubava-livros.html (excerto adaptado)
 

Mas nem sempre os críticos apreciam positivamente os livros sobre os quais escrevem.
Deixo aqui uma crítica negativa.

 

Hagiografias pagãs

Crítica Ípsilon por: José Riço Direitinho


O Filho de Mil Homens
Autoria: Valter Hugo Mãe
Ed. Alfaguara

Um livro em que as personagens se esgotam na contínua comiseração, e com elas o potencial redentor da narrativa

Era uma vez um homem de nome Crisóstomo, cujos “amores haviam falhado e sentia que tudo lhe faltava pela metade”. Quando chegou aos 40 anos, percebeu que estava triste porque não tinha um filho e sentiu essa urgência. “Para dentro do homem era um sem fim, e pouco ou nada do que continha lhe servia de felicidade. Para dentro do homem o homem caía.” Então um dia, numa feira, o homem comprou um grande boneco de pano, com um sorriso feito de botões vermelhos, e em casa sentou-o no sofá. O homem sentia-se “como um pai”, mas continuava a precisar de encontrar um filho. Uma noite, ao entrar na traineira em que trabalhava, viu um novo companheiro: um rapaz de 14 anos, de nome Camilo, que a morte do avô deixara sozinho na vida. E o Crisóstomo “pensou que aquele era o seu filho”. Tempos mais tarde, o pescador pensou “que queria encontrar uma mulher simples, uma que gostasse de viver numa casa pobre com um pescador humilde que tem um filho que é um génio.” (p. 26)
 
Este (aqui muito resumido) bom “conto infantil”, com que Valter Hugo Mãe (n. 1971) “abre” o seu novo livro, dá o mote e o tom de voz as todas as histórias que o vão compondo - como uma bem trabalhada manta de retalhos -, e de certa forma, é ele o centro do romance. A linguagem cuidada e alegórica - a escrita poética, uma das virtudes do livro, denuncia o poeta que se deixou fascinar pelas histórias - cria no leitor a expectativa de uma ideia forte. Mas o problema é que essa expectativa vai saindo baldada com o avanço da narrativa.

As personagens - os enjeitados, os desvalidos e os diminuídos aos olhos da sociedade a que Valter Hugo Mãe já nos habituou em livros anteriores - são também o núcleo forte em “O Filho de Mil Homens”. No entanto, são personagens sempre doces e bondosas, quase como santos imaculados de passagem pela vida terrena, e que sofrem bem sofridas as agruras de um destino que não os favoreceu, de uma comunidade (quase sempre representada por um conjunto de mulheres que conspiram e intrigam armadas com o terço nas mãos) que não quis respeitá-los, que desdenhou do seu sofrimento. O autor parece esquecer que estas personagens não aspiram à pia santidade (as suas vidas não são hagiográficas), longe disso, apenas à felicidade, mas no entanto pouco parecem fazer para isso, pois - e usando palavras do narrador para um outro contexto - parecem feitas “de algodão por dentro”, não há nelas um resto de sangue quente, um resto de vísceras (coração à parte, que esse é sempre enorme e melado), um assomo de tripas que justifiquem uma alteração do destino, esse triste fado a que o “deus” narrador as parece ter condenado.

Essa singular galeria de personagens é apresentada ao leitor nas histórias que se seguem ao “conto infantil” (as primeiras poderiam funcionar como contos independentes). Logo no segundo capítulo, uma mulher anã, capaz de “se sobrepor ao corpinho que tinha e ascender a sentimentos tão belos” (p. 30) que vivia sozinha e de quem as vizinhas cuidavam bem levando-lhe comida e aconselhando-a, mas só até chegar o dia em que a “coitadinha da anã engravidou”; depois chamaram-lhe ordinária e morreu de parto. Na história seguinte, surge Isaura, mulher “enjeitada e diminuta”, aquela que um dia, aos 16 anos, tinha “oferecido tudo ao amor, mesmo sabendo que o amor era longe de bom, mesmo sabendo que era sexo e espera” (p. 61); desflorada por um rapaz que não quis saber dela para casar e, assim, “desonrada”, deixou-se ficar na aldeia, a cuidar dos bichos e de uma mãe que um dia acordou com um estranho sotaque na voz e acabou a comer caganitas de coelho. Anos passados, chega Antonino, o “homem maricas”, para casar com Isaura, a enjeitada: “dois animaizinhos destituídos de grandes méritos mas indubitavelmente filhos empobrecidos de deus” (p. 69). Antonino era o filho de Matilde, a mãe que tinha nojo do filho por ele ser “maricas”: “recolhia as toalhas com luvas e imergia-as em água e lixívia por horas. Ia metê-las ao tanque com muito sabão para se esquecerem de ter encostado na pele de Antonino. De todo o modo, ela nunca as usaria.” (p. 111) (Esta personagem, Matilde, é, sem dúvida, a menos conseguida e, mesmo em ficção, estranha - para os que se preocupam com o género da escrita, é uma figura tipicamente criada por um homem, pois muito dificilmente uma autora, no contexto deste romance, criaria uma “mãe” assim, tão desnaturada).

Em “O Filho de Mil Homens”, as dóceis personagens deixam-se levar no elogio disfarçado das suas bondades, no sofrimento masoquista que lhes é oferecido pela vitimação que lhes chega do mundo (que é sempre mau e regido por mulheres), e pouco ou nada reagem. Por isso, quando se espera que, depois de páginas e páginas de devaneios trágicos e de desgraças “capazes de fazer chorar até as pedras da calçada”, do extravasar de doçuras e de afectos, o seu sofrimento acabe por dar origem a uma sublime redenção, esse potencial redentor já se esgotou, e ainda muito antes de o livro se aproximar do fim; extinguiu-se na comiseração (irónica?) do narrador. E para dentro do livro o livro caía. Para dentro do livro era um sem fim.
“O Filho de Mil Homens” faz ter saudades das letras minúsculas e de “o remorso de baltazar serapião” (1).


(1) “o remorso de baltazar serapião” - livro anterior de Valter Hugo Mãe, escritor cujos primeiros livros eram sempre escritos em letra minúscula; daí a alusão do crítico.

Fonte: Ipsilon, http://ipsilon.publico.pt/livros/critica.aspx?id=293816

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