Como combinado, deixo uma
sistematização dos tópicos registados em aula. A partir dos exemplos aqui fornecidos e dos registados em aula, encontrem os vossos
próprios versos e ideias-chave, bem como as surpresas temáticas e linguísticas
mais interessantes.
Escrevo-te sobre uma
secretária comercial, cheia de papéis, de livros, de notas, de trinta mil coisas que me tornam
prosaico e prático.
Eu não sou como muitos que estão no meio dum grande ajuntamento de gente
completamente isolados e abstratos.” Cesário
“(…) eu não desprezo
de modo algum o coração, que quando desprezado não deixa brotar nenhuma
obra de arte.
Mas o que eu desejo é aliar
lirismo e ideia de justiça.”
Cesário
É uma poesia capaz de
reflexão, de denúncia, de preocupação com a injustiça social. Sem pieguices,
«prosaica», «prática», qualidades que Cesário atribuía a si próprio em
resultado da atividade comercial que exercia.
TEMAS E MOTIVOS
·
a grande cidade – a Babel dos novos tempos: as ruas, as
gentes, os tipos sociais, o movimento, a confusão; a modernidade; a rua, como espaço
preferencial
·
a vida do campo não como “ideal
romântico”, mas como espaço natural - com batatais, laranjas, formigas, vacas
- humanizado pelo trabalho do homem: em Cesário há o «campo» e não a
«natureza».
·
a simpatia pelos humildes (atenção às
profissões mais difíceis): pedreiro; calafate; calceteiro; carpinteiro; engomadeira;
vendedeira; peixeira; padeiro...
·
a deambulação – o homem na cidade; o “eu” observador e
protagonista; atento e compassivo, mas também melancólico e ausente.
. o jogo de contrastes - realidades sociais opostas; subjetivo v/s objetivo; beleza do dia v/s miséria social; autocaraterização/caracterização da figura feminina ...
·
referência ao inédito, ao abjeto, ao repulsivo: a
doença; a podridão; a devassidão; a boçalidade; a prostituição...
·
a ânsia de evasão/fuga (de lugar - pela viagem/
imaginação; de tempo – evocação/ sonho/memória/História)
Na pintura «realista», nomeadamente em Gustave Courbet (1819-1877),
as figuras dos trabalhadores ocupam a centralidade do quadro
LINGUAGEM /ESTILO
Vocabulário
Para traduzir esse universo de novos temas e a
observação atenta do quotidiano, Cesário Verde valoriza, faz entrar para a
poesia vocábulos considerados prosaicos (próprios da prosa), como:
· elementos do quotidiano (nomes comuns):
prédio; inquilino; gelosia; talheres; persianas; candelabros; parafuso; giga;
balcões...
·
nomes de profissões: calceteiro; calafate; varina; peixeira;
calceteiro; vendedeira; forjador; caixeiro...
·
nomes de doenças e/ou de realidades desagradáveis: cólera; febre; dores de cabeça; tonturas; apoplexia; pulmões doentes; focos de infecção...
·
palavras cujo ritmo e sonoridade eram estranhas/improváveis
em poesia: apoplexia; macadamizadas; mecklemburgueses; consecutivamente;
asfixia; inquilino...
·
expressões muito diretas/realistas: “peixe podre gera
focos de infecção”; “secavam dejecções cobertas de mosquiteiros”; "cospem nas calosas mãos"...
Marcas narrativas – referências
temporais e verbos normalmente próprios da narrativa:
·
verbos de movimento– andar, descer, abrir, pousar – muitos dos quais
traduzem acções/actividades do quotidiano – “Já fumei três maços de
cigarros...”Pousara, ajoelhando, a sua giga”; Calçam de lado a lado a larga
rua” .
·
advérbios de tempo/outras marcas temporais: “Dez horas da manhã”
·
advérbios de modo – consecutivamente, insensatamente, perfeitamente...
·
inclusão de discurso directo: “Se te convém, despacha; não converses./Eu
não dou mais.”
·
expressões retiradas da oralidade: “Que diabo!” ; “Que mundo!” ;
“Coitadinha!”
DESCRIÇÃO
Descrição realista - seca, não “romântica”
ou retocada da pobreza:
·
a vendedeira é “esguedelhada” “feia”;
·
a engomadeira “ É feia”, ”lívida”, “sem peito”;
·
os calceiteiros “terrosos e grosseiros”, “bestas de carga”
Também Edgar Degas (1834-1917), um dos fundadores do impressionismo,
refletia nas suas pinturas as novas classes trabalhadoras surgidas nas cidades do século XIX.
Descrição
impressionista – feita de sugestões de cor, de luz, de captação da surpresa do instante:
·
“Amareladamente, os cães parecem lobos” ;
·
"Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas”
·
"Vibra uma imensa claridade crua”, “Abre-se-lhe o algodão azul da meia”
·
"Os charcos brilham tanto (...) lagoas de brilhantes"
Descrição sensorial - Forte poder dos
sentidos, em especial da visão (VISUALISMO), mas também dos restantes sentidos -
audição, cheiro, gosto, tacto:
·
O OLFATO "cheiro honesto a pão no forno"
·
A AUDIÇÃO E A VISÃO "um parafuso cai nas lajes às escuras”
·
O PALADAR "as frutas tónicas e puras”, “As laranjas com cascas e
caroços/, comes com bestial sofreguidão”
·
O TATO Faz frio.” , “A sua barba agreste”.
Recursos:
·
adjetivo (por vezes, dupla, tripla
ou múltipla adjetivação) e advérbio - em novas e inesperadas combinações
e, por vezes, em lugar inicial de frase - "[...] feio, sólido, leal";
"E rota, pequenina, azafamada [...] uma rapariga"; "E sujos, sem ladrar,
ósseos, febris, errantes,/Amareladamente, os
cães..."
·
utilização original de comparações e
metáforas – “Com o ralo/ Do regador, parece que joeira/Ou que borrifa
estrelas”; “chorar doente dos pianos”, “E o Sol estende[…]seus raios de laranja
destilada” ,
·
Recurso a figuras de estilo que traduzem
o movimento, o ambiente, a mistura de sensações, sobretudo: sinestesia; enumeração.
O melhor é mesmo ter o livro, mas se não tiveres,