segunda-feira, 29 de maio de 2017

Leitura - artigos de imprensa

 De acordo com o solicitado pelos mais indecisos, ficam alguns artigos que darão boas reflexões.
(Ciência e Sociedade; entrevista com o escritor e investigador Yuval Harari; Diário de Notícias) 
"Cmoo é que o crberéo cnosgeue ler etsa farse?" (DN)
[Especialmente dedicado ao 11º B, a propósito da discussão sobre os assuntos 
ditos "próprios" para cada curso... aqui fica o seguinte artigo]

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Cesário Verde - síntese

Como combinado, deixo uma sistematização dos tópicos registados em aula. A partir dos exemplos aqui fornecidos e dos registados em aula, encontrem os vossos próprios versos e ideias-chave, bem como as surpresas temáticas e linguísticas mais interessantes.   
Escrevo-te sobre uma secretária comercial, cheia de papéis, de livros, de notas, de trinta mil coisas que me tornam prosaico e prático.
Eu não sou como muitos que estão no meio dum grande ajuntamento de gente completamente isolados e abstratos.” Cesário
“(…) eu não desprezo de modo algum o coração, que quando desprezado não deixa brotar nenhuma obra de arte.
Mas o que eu desejo é aliar lirismo e ideia de justiça.”  Cesário

É uma poesia capaz de reflexão, de denúncia, de preocupação com a injustiça social. Sem pieguices, «prosaica», «prática», qualidades que Cesário atribuía a si próprio em resultado da atividade comercial que exercia.
 
        TEMAS E MOTIVOS
·        a grande cidade – a Babel dos novos tempos: as ruas, as gentes, os tipos sociais, o movimento, a confusão; a modernidade; a rua, como espaço preferencial
·        a vida do campo não como “ideal romântico”, mas como espaço natural - com batatais, laranjas, formigas, vacas -  humanizado pelo trabalho do homem: em Cesário há o «campo» e não a «natureza».
·        a simpatia pelos humildes (atenção às profissões mais difíceis): pedreiro; calafate; calceteiro; carpinteiro; engomadeira; vendedeira; peixeira; padeiro...
·        a deambulação – o homem na cidade; o “eu” observador e protagonista; atento e compassivo, mas também melancólico e ausente.
.    o jogo de contrastes - realidades sociais opostas; subjetivo v/s objetivo; beleza do dia v/s miséria social; autocaraterização/caracterização da figura feminina ...
·        referência ao inédito, ao abjeto, ao repulsivo: a doença; a podridão; a devassidão; a boçalidade; a prostituição...
·        a ânsia de evasão/fuga (de lugar - pela viagem/ imaginação; de tempo – evocação/ sonho/memória/História)
 Na pintura «realista», nomeadamente em Gustave Courbet (1819-1877),
as figuras dos trabalhadores ocupam a centralidade do quadro

LINGUAGEM /ESTILO
Vocabulário
Para traduzir esse universo de novos temas e a observação atenta do quotidiano, Cesário Verde valoriza, faz entrar para a poesia vocábulos considerados prosaicos (próprios da prosa), como:
·          elementos  do quotidiano (nomes comuns): prédio; inquilino; gelosia; talheres; persianas; candelabros; parafuso; giga; balcões...
·          nomes de profissões: calceteiro; calafate; varina; peixeira; calceteiro; vendedeira; forjador; caixeiro...
·          nomes de doenças e/ou de realidades desagradáveis: cólera; febre; dores de cabeça; tonturas; apoplexia; pulmões doentes; focos de infecção...
·          palavras cujo ritmo e sonoridade eram estranhas/improváveis em poesia: apoplexia; macadamizadas; mecklemburgueses; consecutivamente; asfixia; inquilino...
·          expressões muito diretas/realistas: “peixe podre gera focos de infecção”; “secavam dejecções cobertas de mosquiteiros”; "cospem nas calosas mãos"...

Marcas narrativas – referências temporais e verbos normalmente próprios da narrativa:
·         verbos de movimento– andar, descer, abrir, pousar – muitos dos quais traduzem acções/actividades do quotidiano – “Já fumei três maços de cigarros...”Pousara, ajoelhando, a sua giga”; Calçam de lado a lado a larga rua” .
·         advérbios de tempo/outras marcas temporais: “Dez horas da manhã”
·         advérbios de modo – consecutivamente, insensatamente, perfeitamente...
·         inclusão de discurso directo: “Se te convém, despacha; não converses./Eu não dou mais.”
·         expressões retiradas da oralidade: “Que diabo!” ; “Que mundo!” ; “Coitadinha!”

DESCRIÇÃO
Descrição realista - seca, não “romântica” ou retocada da pobreza:
·        a vendedeira é “esguedelhada” “feia”;
·        a engomadeira “ É feia”, ”lívida”, “sem peito”;
·        os calceiteiros “terrosos e grosseiros”, “bestas de carga” 
 Também Edgar Degas (1834-1917), um dos fundadores do impressionismo, 
refletia nas suas pinturas as novas classes trabalhadoras surgidas nas cidades do século XIX.
Descrição impressionista – feita de sugestões de cor, de luz, de captação da surpresa do instante:
·       “Amareladamente, os cães parecem lobos” ;
·       "Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas”
·       "Vibra uma imensa claridade crua”, “Abre-se-lhe o algodão azul da meia”
·       "Os charcos brilham tanto (...) lagoas de brilhantes" 

Descrição sensorial - Forte poder dos sentidos, em especial da visão (VISUALISMO), mas também dos restantes sentidos - audição, cheiro, gosto, tacto:
·        O OLFATO "cheiro honesto a pão no forno"
·        A AUDIÇÃO E A VISÃO "um parafuso cai nas lajes às escuras”
·        O PALADAR "as frutas tónicas e puras”, “As laranjas com cascas e caroços/, comes com bestial sofreguidão”
·        O TATO Faz frio.” , “A sua barba agreste”.

Recursos
·       adjetivo (por vezes, dupla, tripla ou múltipla adjetivação) e advérbio - em novas e inesperadas combinações e, por vezes, em lugar inicial de frase - "[...] feio, sólido, leal"; "E rota, pequenina, azafamada [...] uma rapariga"; "E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,/Amareladamente, os cães..."
·       utilização original de comparações e metáforas – “Com o ralo/ Do regador, parece que joeira/Ou que borrifa estrelas”; “chorar doente dos pianos”, “E o Sol estende[…]seus raios de laranja destilada” ,
·       Recurso a figuras de estilo que traduzem o movimento, o ambiente, a mistura de sensações, sobretudo: sinestesia; enumeração.

O melhor é mesmo ter o livro, mas se não tiveres, 
podes descarregar os poemas de Cesário Verde.

Cesário Verde, "Nós", "Contrariedades", "Cristalizações"

Para alargar horizontes, ficam três famosos poemas de Cesário Verde


 
Contrariedades

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
    Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
    E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
    E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve conta à botica!
    Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
    Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais uma redacção, das que elogiam tudo,
    Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A Imprensa
    Vale um desdém solene.

Com raras excepções, merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e a paz pela calçada abaixo,
Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho
    Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
    Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
    Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua "coterie";
Ea mim, não há questão que mais me contrarie
    Do que escrever em prosa.

A adulaçãao repugna aos sentimento finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exactos,
    Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
    E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
    Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
    Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a "réclame", a intriga, o anúncio, a "blague",
E esta poesia pede um editor que pague
    Todas as minhas obras...

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe a luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
    Que mundo! Coitadinha!
 ***
Cristalizações
  Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros,
Vibra uma imensa claridade crua.
De cócoras, em linha, os calceteiros,
Com lentidão, terrosos e grosseiros,
Calçam de lado a lado a longa rua. 

Como as elevações secaram do relento,
E o descoberto sol abafa e cria!
A frialdade exige o movimento;
E as poças de água, como em chão vidrento,
Reflectem a molhada casaria. 

Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita,
Disseminadas, gritam as peixeiras;
Luzem, aquecem na manhã bonita,
Uns barracões de gente pobrezita
E uns quintalórios velhos com parreiras.

Não se ouvem aves; nem o choro duma nora!
Tomam por outra parte os viandantes;
E o ferro e a pedra — que união sonora! —
Retinem alto pelo espaço fora,
Com choques rijos, ásperos, cantantes. 

Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços,
Cuja coluna nunca se endireita,
Partem penedos; cruzam-se estilhaços.
Pesam enormemente os grossos maços,
Com que outros batem a calçada feita. 

A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!
Que espessos forros! Numa das regueiras
Acamam-se as japonas, os coletes;
E eles descalçam com os picaretes,
Que ferem lume sobre pederneiras. 

E nesse rude mês, que não consente as flores,
Fundeiam, como esquadra em fria paz,
As árvores despidas. Sóbrias cores!
Mastros, enxárcias, vergas! Valadores
Atiram terra com as largas pás. 

Eu   julgo-me no Norte, ao frio — o grande agente! —
Carros de mão, que chiam carregados,
Conduzem saibro, vagarosamente;
Vê-se a cidade, mercantil, contente:
Madeiras, águas, multidões, telhados! 

Negrejam os quintais, enxuga a alvenaria;
Em arco, sem as nuvens flutuantes,
O céu renova a tinta corredia;
E os charcos brilham tanto, que eu diria
Ter ante mim lagoas de brilhantes! 

E engelhem, muito embora, os fracos, os tolhidos,
Eu tudo encontro alegremente exacto.
Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.
E tangem-me, excitados, sacudidos,
O tato, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto! 

Pede-me o corpo inteiro esforços na friagem
De tão lavada e igual temperatura!
Os ares, o caminho, a luz reagem;
Cheira-me a fogo, a sílex, a ferragem;
Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura. 

Mal encarado e negro, um pára enquanto eu passo;
Dois assobiam, altas as marretas
Possantes, grossas, temperadas de aço;
E um gordo, o mestre, com um ar ralaço
E manso, tira o nível das valetas. 

Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!
Que vida tão custosa! Que diabo!
E os cavadores pousam as enxadas,
E cospem nas calosas mãos gretadas,
Para que não lhes escorregue o cabo. 

Povo! No pano cru rasgado das camisas
Uma bandeira penso que transluz!
Com ela sofres, bebes, agonizas;
Listrões de vinho lançam-lhe divisas,
E os suspensórios traçam-lhe uma cruz! 

De escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,
Surge um perfil direito que se aguça;
E ar matinal de quem saiu da toca,
Uma figura fina, desemboca,
Toda abafada num casaco à russa. 

Donde ela vem! A actriz que tanto cumprimento
E a quem, à noite na plateia, atraio
Os olhos lisos como polimento!
Com seu rostinho estreito, friorento,
Caminha agora para o seu ensaio. 

E aos outros eu admiro os dorsos, os costados
Como lajões. Os bons trabalhadores!
Os filhos das lezírias, dos montados:
Os das planícies, altos, aprumados;
Os das montanhas, baixos, trepadores! 

Mas fina de feições, o queixo hostil, distinto,
Furtiva a tiritar em suas peles,
Espanta-me a atrizita que hoje pinto,
Neste Dezembro enérgico, sucinto,
E nestes sítios suburbanos, reles! 

Como animais comuns, que uma picada esquente,
Eles, bovinos, másculos, ossudos,
Encaram-na sanguínea, brutamente:
E ela vacila, hesita, impaciente
Sobre as botinhas de tacões agudos. 

Porém, desempenhando o seu papel na peça,
Sem que inda o público a passagem abra,
O  demonico arrisca-se, atravessa
Covas, entulhos, lamaçais, depressa,
Com seus pezinhos rápidos, de cabra!

Lisboa, Inverno de 1878
Coimbra, Revista de Coimbra, n.0 1, 1879, republicada
em Correspondência de Coimbra, 17 de Junho de 1879

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Porto - cidade invicta

Mais imagens...do nosso Porto, pontuadas pelas palavras dos escritores.
«Se na nossa cidade há muito quem troque o b por v, há pouco quem troque a liberdade pela servidão.» | Almeida Garrett

                                               5 de maio.Palácio da Bolsa, Salão Árabe   
«Afinal, o Porto, para verdadeiramente honrar o nome que tem, é, primeiro que tudo, este largo regaço aberto para o rio, mas que só do rio se vê, ou então, por estreitas bocas fechadas por muretes, pode o viajante debruçar-se para o ar livre e ter a ilusão de que todo o Porto é a Ribeira.»|José Saramago
5 de maio. Cais de Gaia
-depois da chuva, a limpidez da noite -
                                                                      
«Toda a cidade, com as agulhas dos templos, as torres cinzentas, os pátios e os muros em que se cavam escadas, varandas com os seus restos de tapetes de quarto dependurados e o estripado dos seus interiores ao sol fresco, tem toda ela uma forma, uma alma de muralha.»| Agustina Bessa Luís
 6 de maio. Livraria Lello
Se a manhã na Faculdade de Ciências, nos trouxe muita informação e observação da área da Biologia (dos crânios às tarântulas, das plantas à  Genética e Microbiologia),  quanto a edifícios, estruturas, materiais, implantação no terreno, funções ... da Matemática à Física, da Geografia à Economia, do Português à Educação Física, todos tiveram, e têm, muito a dizer.

 Salão Árabe do Palácio da Bolsa
Ponte de D. Luís
 Livraria Lello
Autoria das três fotos acima: prof. Carla Oliveira

Relembra-se que (além do muito que cada um mandou para Instagram, Snapchat...) 
há mais fotos publicadas no dia 6, por exemplo:
DOURO. Cruzeiro das Seis Pontes, Ponte da Arrábida. NS
Cruzeiro no Douro. NS
(um quarteto maravilha...)

Nota: seleção de frases dos escritores portugueses: Jorge Fiel, no blogue «Bússola».

Erasmus +

A turma 11º B recebeu no dia 9 um grupo de onze estudantes da República Checa e o seu professor, que se encontram na nossa escola ao abrigo do Programa Erasmus +

Foi um interessante convívio e trabalho sobre a língua portuguesa - cada pequeno grupo de 2 ou 3 alunos do 11º B ensinou a cada aluno checo a iniciação ao Português: apresentar-se, saudar, despedir-se, identificar escola, país e nacionalidade, conhecer os dias da semana e os números, etc.
Até houve pequenas gravações (disponíveis em breve). Entretanto, ficam as primeiras imagens.
 Sim...coubemos todos na A 3 02! Queríamos que os checos conhecessem o nosso espaço diário.

Cesário Verde - o homem e o seu tempo


O Portugal de Cesário Verde
 
 Leiteiros - o campo vinha à cidade
No princípio de Julho, começara a debandada dos ricos; ficar em Lisboa era o cúmulo da ignomínia social. Centenas de poemas e folhetins pequeno-burgueses denunciam a miséria, atacam os ricos e troçam dos padres: a 19, às cinco horas da manhã, com os pulmões destruídos pela tuberculose, morreu Cesário Verde. Tinha 31 anos e vira o fim chegar “como um medonho muro”.
Em 1886, Portugal era um país predominantemente rural. Fora de Lisboa e do Porto, não havia verdadeiramente cidades. A maior parte da população – 8 em cada 10 portugueses – vivia no campo, trabalhando uma terra pouco fértil mal distribuída. A norte do Mondego predominava a pequena propriedade, cultivada por camponeses e rendeiros pobres; a sul, o latifúndio. Ao contrário do que sucedia nalguns países europeus, a maioria dos senhores residia nas cidades, administrando as suas terras por intermédio de feitores; só um punhado de proprietários rurais se interessava o suficiente pelas suas explorações para aí tentar introduzir as inovações que sabia estarem a ser utilizadas no estrangeiro. Mas, num país que dispunha de uma mão-de-obra barata inesgotável, como Portugal, a mecanização raramente foi um êxito. Apesar de, em 1843, na Granja Real de Mafra, terem sido exibidas várias máquinas agrícolas, quarenta anos mais tarde o seu número era extremamente reduzido. Dos três produtos cultivados em grande escala, o trigo, a vinha e o arroz, só com o primeiro era possível utilizá-las. Assim, a maioria dos trabalhos agrícolas continuou a ser feita por trabalhadores rurais, camponeses ou assalariados, com os métodos que os seus pais e avós usavam há séculos.
Nas cidades, a Civilização penetrou mais facilmente. Depois das tempestades da primeira metade do século, Portugal atravessou um período calmo, durante o qual um grupo de políticos enérgicos se entregou à exaltante tarefa de modernizar o País. Durante alguns anos, a realidade correspondeu às expectativas. A indústria desenvolveu-se: Lisboa especializou-se na estamparia de tecidos e na metalurgia; o Porto, na fiação e tecelagem de algodão. Apesar do esforço do Fontismo no que diz respeito a vias de comunicação, o mercado interno estava longe de se encontrar unificado. Em muitas aldeias, os camponeses continuavam a comer o que produziam e a vestir o que o artesanato local Ilhes fornecia, como sempre haviam feito.
No litoral, as fábricas produziam alguns bens de consumo simples, tecidos, pás e enxadas, tabaco, papel e rolhas. Apenas se exportavam conservas de peixe e cortiça.
Entre 1850 e 1880, a indústria crescera vagarosamente, mas crescera: em 1850, o total de cavalos-vapor existentes era de 938; em 1880 subira para 7000. No têxtil, cortiças e tabacos, existiam agora fábricas com mais de 500 operários. Infelizmente, Portugal estava suficientemente perto da Europa para que os progressos destes países ensombrecessem o que aqui se passava. Em 1881, um membro da comissão do Inquérito Industrial que o Governo mandou efetuar escrevia desencantadamente: “Levam-nos um grande avanço as nações industriais, tocaram quase a meta, quando nós principiámos ainda a caminhar”, e acrescentava “Esforços e energias de que valem, se os passos que nós damos para diante são sempre fartamente compensados por outros mais largos e mais rápidos que eles dão no mesmo sentido?”. (...)
Na indústria também havia problemas: o mercado interno estava a ser invadido por produtos estrangeiros que aqui chegavam a preços baixíssimos. Os velhos pólos artesanais estagnavam. Mesmo as fábricas urbanas se sentiam ameaçadas. Serralheiros e tecelões, caldeireiros e marceneiros apelam ao Governo para que faça qualquer coisa por eles, nomeadamente que dificulte a importação dos produtos estrangeiros; mas ainda teriam de aguardar alguns anos, antes que uma resolução fosse tomada. (…)
Em 1886, Lisboa era uma cidade muito diferente do que tinha sido trinta anos antes. A sua população, trezentos mil habitantes, tinha dobrado. Do campo, haviam chegado milhares, os homens primeiro, para trabalhar como estivadores ou pedreiros, a família depois. Em parte devido à pressão dos recém-chegados, em parte porque o alargamento dos limites urbanos era uma forma de obter novas receitas para o Estado, a cidade alastrava. Ao lado de uma indústria incipiente, visível sobretudo para os lados de Xabregas e Alcântara, a cintura saloia espraiava-se por todo o lado, Mafra, Benfica, Lumiar.
Os laços ao campo permaneciam fortes. A infância rural deixava saudades que não desapareciam facilmente. Com os seus espaços apertados e o tempo normalizado, a cidade parecia asfixiante aos novos habitantes. Não surpreende pois que, nos quentes dias de Verão, o povo deixasse a capital, com cestos repletos de talhadas de melão, damascos e pão-de-ló, a caminho das hortas. Para os que ficavam, havia os bailes “campestres” sob as parreirinhas dos cafés e das sociedades recreativas, além da música ao ar livre nos coretos pintados de fresco. (…)
Em 1886, já tinham sido introduzidas em Lisboa algumas das inovações que facilitavam a vida urbana: em 1848, tinham aparecido os primeiros candeeiros a gás e, em 1878, haviam sido instalados, no Chiado, seis candeeiros elétricos. Não se pense contudo que esses melhoramentos se propagaram rapidamente. Grande parte das ruas da cidade era de terra, mal cheirosas e escuras. A muitas das suas vielas e escadinhas, a civilização não chegara. A 18 de Julho, um grupo de habitantes de Alfama pedia insistentemente à Câmara de Lisboa que mandasse regar as ruas do bairro, pois o vento estava a levantar enormes ondas de poeira, que invadiam casas e lojas.
Nos bairros antigos, a higiene era deplorável. Com traseiras, pátios e quintais apinhados de galinhas, coelhos e porcos, as casas estavam infestadas de parasitas. Apesar de a recente captação do rio Alviela ter permitido instalar uma rede de distribuição de água ao domicílio, o benefício chegava a poucas casas. Nos mercados, as condições sanitárias eram péssimas, fazendo com que muitos dos géneros consumidos pelas classes populares estivessem estragados. Os fiscais tentavam pôr cobro à situação, mas não chegavam para as encomendas. No mercado central, a 17 de Julho, tinham sido inutilizadas, como impróprias para consumo, 81 pescadas, 76 peixes-espadas e 1200 carapaus: era uma gota no oceano.
Mercado da Ribeira
Com os seus pregões e cheiros, gritos e correrias, a vida nestes bairros era animada. Até certo ponto, o bairro reproduzia a aldeia originária, com as suas redes de lealdades e rivalidades. Muita gente nascia e morria ali, sem ter saído dos seus limites estreitos: era ali que trabalhava, namorava e se zangava. Como em todos os universos fechados, as brigas eram frequentes, assumindo por vezes um carácter violento. (…)
Cidade portuária, a zona ribeirinha era uma das mais ativas de Lisboa. Pelas docas de Alcântara, lhe chegava o carvão que consumia nas suas fábricas; pela de Santos, as mercadorias coloniais; pela do Cais do Sodré, os melões e o vinho de Almeirim, o trigo do Alentejo, as melancias de Setúbal, o peixe que abastecia a cidade. Fragateiros, varinas e descarregadores povoavam este cenário luminoso e febril. Todos os dias atracavam grandes transatlânticos, despejando mercadorias. (…)
Os contrastes entre ricos e pobres eram enormes. É verdade que os milionários portugueses eram patéticos quando comparados com os seus parceiros europeus, mas em face da miséria indígena qualquer ser com o mínimo de sensibilidade se chocaria. No centro da cidade, entre portais e vãos de escada, amontoavam-se cegos, estropiados, crianças abandonadas e velhos paralíticos. Para muitos, os pobres faziam parte da ordem do Universo e a injustiça social de que eram vítimas era tão natural como o facto de um sobreiro não ter nascido um pinheiro, como mais tarde escreveria Fernando Pessoa. Os miseráveis eram objetos que Deus colocara no caminho dos ricos para que estes pudessem exercer a caridade, nas festas e nos bazares variados, como o que, na véspera, tivera lugar no passeio da Estrela, durante o qual as senhoras da Lapa leiloaram entre si os despojos oferecidos.

Mas não havia caridade que bastasse para este caudal imenso de costureiras pálidas e tísicas, artesãos desempregados de olhar rebelde, vendedeiras esmagadas pelo peso da carga, velhas abandonadas que falavam sozinhas, coxos, cegos e manetas. Nesse Verão de 1886, os albergues noturnos abarrotavam de gente suja e esfarrapada que, aos milhares, ali ia em busca de uma sopa e de uma enxerga. (…)
Os trabalhadores ganhavam salários irrisórios e estavam sempre à beira do desemprego. Alimentavam-se, ano após ano, a pão, sopa e batatas, uma ementa insuficiente que ajuda a explicar as altíssimas taxas de mortalidade de Lisboa e do Porto. As doenças que mais mortes causavam eram a tuberculose pulmonar e as pneumonias. Havia quem não aguentasse esperar: Luísa, criada de servir, atirava-se, na tarde de 18 de Julho, de um terceiro andar na Rua do Oiro para a rua após ter sido despedida; o cozinheiro Cândido da Silva lançava-se ao Tejo.
As condições de trabalho eram atrozes: a duração do dia de trabalho era longuíssima e a segurança nas oficinas inexistente. Todos os dias se verificavam acidentes: fiandeiras que ficavam sem dedos, pedreiros que caíam de andaimes, vidreiros que arruinavam os pulmões, mineiros que ficavam soterrados. A 18 de Julho, quando trabalhava na construção de uma linha de caminho-de-ferro, Sebastião Pereira, de 30 anos, fora subitamente esmagado por um penedo que se soltara, enquanto Manuel do Ó caía de uma tábua durante um descarregamento no cais. Perante este espetáculo, até os mais acérrimos defensores do liberalismo foram forçados a vergar. A ideia de que o Estado tinha de intervir para proteger os mais fracos foi-se espalhando.

O nível cultural da população era baixíssimo: oito em cada dez portugueses não sabia ler nem escrever, situação que na Europa só encontrava paralelo nos mais remotos cantos do Império Austro-Húngaro. Apesar da retórica, o regime não tinha sido capaz de melhorar a instrução do povo. Apenas em Lisboa e no Porto se tinham verificado alguns progressos, mas mesmo esses eram ridículos.(...)
No princípio de Julho começara a debandada dos ricos: ficar em Lisboa era o cúmulo da ignomínia social. Os mais invejados eram os que partiam para o estrangeiro. A 18 de Julho, o movimento dos carros de aluguer era intenso nas estações de caminho-de-ferro, levando e trazendo os que chegavam, de “Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!”. (…)
Os pequeno-burgueses ficavam-se por Linda-a-Pastora, Belas ou Caneças, sítios aprazíveis, de belas quintas muradas e aldeias lavadas, com bons ares, boa luz, bons alimentos. Quem não alugaria a casa que a 18 de Julho o Diário Popular anunciava: “Aluga-se fora de portas, mas próximo de Arroios, sítio saudável, tem água da Companhia, excelente escada, 9 compartimentos, muito limpos e espaçosos, incluindo despensa e quarto para criado, passam-lhe à porta de 1/2 em 1/2 hora carros Riped e outros. Renda até ao fim do ano: 50.000$00?
Entalados entre os ricos e os pobres, estes pequeno-burgueses dividiam-se nos seus hábitos, comportamentos políticos e cultura. Os mais ambiciosos tentavam imitar o estilo de vida aristocrático, enquanto as camadas inferiores, que não podiam acalentar tais ambições, se consumiam num ressentimento social que aumentava com a crise económica e com a prolongada marginalização. Em 1886, muitos estavam já descrentes de que o regime monárquico Ihes desse o que pretendiam: consideração social e participação política. Alguns começaram a aderir ao movimento republicano que exprimia maravilhosamente o seu ódio aos privilégios sociais.
Os jornais populares espelham a sua visão do mundo. O contraste entre a vida dos ricos e dos pobres é celebrado até à exaustão: de um lado, a família burguesa, envolta em seda e arminhos; do outro, a pobre, tiritando de frio e fome. Centenas de poemas e folhetins pequeno-burgueses denunciam a miséria, atacam os ricos e troçam dos padres: é o grande fresco dos humilhados e ofendidos, a retórica lacrimejante tão apreciada em reuniões populares. Os títulos destes poemas, “Contrastes”, “A Miséria”, “A Prostituta”, “O Desgraçado”, são indicativos do conteúdo. Cesário Verde faz parte desta tradição: o que distingue é o génio.

Quem, a 19 de Julho de 1886, abrisse, de manhã, a janela, perceberia que o dia iria estar quente. No Norte trovejara, mas nos arrabaldes da capital, entre as ribeiras e os montes, o clima estava ameno. Nos pomares, cantavam os pintarroxos, nos prados as vacas leiteiras pastavam pachorrentamente e, entre pedregulhos luzidios, as mulheres saloias preparavam-se para lavar as últimas peças de roupa que, no dia seguinte, teriam de entregar nas casas ricas da capital. Famílias aperaltadas partiam para a missa dominical. O silêncio era apenas entrecortado pelas chocas da manada e pelos carros de bois que desciam do outeiro. Foi no meio deste esplendor que, às 5 h da manhã, com os pulmões destruídos pela tuberculose, “sem querer, aflito e atónito”, morreu José Joaquim Cesário Verde. Tinha 31 anos e vira chegar o fim “como um medonho muro”.
Maria Filomena Mónica, in Revista Prelo, nº 12, 1986

Imagem de transporte: Partindo das Portas do Rego (Lisboa), o "Larmanjat" era um mono-carril com dois apoios, o antepassado da Linha de Sintra.